sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Eduardo Meira de Araújo

 






Homenagem a Eduardo Meira é de sempre. A deste momento é diferente pelo tipo de sentimento: a perda. Ontem, Eduardo faleceu e foi sepultado. Os últimos dias foram-lhe penosos. O coração não resistiu.

Eduardo Meira, filho de Mário Vieira de Araújo e Ramira Meira de Araújo, nasceu em 06 de novembro de 1954, por acaso em Ilhéus, pois a família é conquistense (lembro que um dos ascendentes é Almirante, aquele que se envolveu na disputa entre Meletes e Peduros).

Militou nos movimentos sociais desde bem jovem. Esteve, ainda estudante, junto a jovens contestadores do regime militar, grupo que fazia circular uma folha mimeografada com o título “O Combatente”. Participou da oposição sindical dos comerciários, foi um dos fundadores da CUT – Regional Sudoeste da Bahia, do Centro de Assessoramento em Trabalhos Sociais, de Labor Assessoria, ativo integrante da Oposição Operária, do Grupo Parp (Parto). Militou no PT, mas desse afastou-se. Junto a professores, desenvolveu trabalhos no sentido de dota-los de um outro sindicato.

Era Eduardo Meira personalidade presente nos movimentos e manifestações populares. Espírito socialista, lúcido e inteligente, era muito querido.

Formado em Geografia, era professor dessa ciência, na rede estadual. Deixa forte lembrança entre seus discentes.

Para os seus, Sara, Hugo e Raquel, meu abraço forte. Seu Eduardo é exemplo de homem.


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

A Mestra não batia continência

 


Ruy Medeiros



A mestra chamava-se Edvanda Teixeira. Ela envolveu-se de corpo e alma no trabalho de educação popular. Embora professora da rede pública de ensino e cumpridora de seus deveres de servidora pública, tirava a maior parte de seu tempo em atividades de Educação popular. É que gratuitamente ensinava, na periferia da cidade e na zona rural, a trabalhadores, jovens, donas de casa, desempregados.

Foi a grande educadora, na região, das Comunidades Eclesiais de Base. Seu ensino era problematizador e emancipatório. Todos os envolvidos participavam, a fala de todos era buscada e considerada. A visão crítica das coisas estabelecia-se no auditório e as diversas contribuições sobre o tema em pauta eram discutidas. A liberdade era cultivada.

Grande parte de sua vida transcorreu no período da ditadura militar. A parábola tinha de ser utilizada.

O Município de Vitória da Conquista batizou uma de suas escolas com o nome da educadora. Homenageava-a, reconhecia-lhe o trabalho e queria perpetuar sua memória de educadora para a liberdade, seu método, inclusive (ou sobretudo?).

Agora, circula notícia de que a escola que ostenta o nome da educadora Edvanda Teixeira oferecerá ensino com pedagogia nos moldes de Colégio Militar.

Quem, sem conhecer a história de vida da educadora, Edvanda Teixeira, ver o seu nome inscrito na fachada da escola, que passar a adotar a pedagogia dos Colégios Militares, há de imaginar que era essa a pedagogia de Edvanda Teixeira e a sua memória estará desfeita ou, no mínimo, desnaturada. Todo objetivo de preservar a memória íntegra de uma grande educadora se esvairá. Esse não pode e não deve ser objetivo de homenagem. Não.




terça-feira, 17 de agosto de 2021

Para além do analfabetismo funcional

 



Há pessoas que sabem ler e escrever, mas não conseguem elaborar um texto ou compreender uma notícia escrita. Elas frequentaram escolas, sabem somar, multiplicar, subtrair, dividir e lêem e escrevem nomes, frases, talvez mesmo um bilhete, um endereço, ou algo simples. São os analfabetos funcionais ou secundários.

As sociedades atribuem a denominação de analfabeto funcional de acordo com suas exigências culturais. Umas exigem mais e outras exigem menos de seus alfabetizados.

No Brasil de hoje, é incalculável o número de analfabetos funcionais, mas ao lado dele outro fenômeno ocorre: há algo além desse tipo de analfabetismo. Trata-se do analfabetismo que não é sofrido pelas pessoas, mas que por elas é cultivado, exercitado com ganas de bárbaro. Lêem e escrevem, mas se recusam a transformar informação em conhecimento por não exercerem nenhum trabalho reflexivo sobre ela. Essas pessoas encontram-se envoltas em situação do além analfabetismo funcional e reagem alimentando-o. Envoltas no e alimentantes do analfabetismo além do funcional, as pessoas nessa situação caracterizam-se, em primeiro plano, por negar a evidência. Não se trata de, metodologicamente, deixar de lado a aparência das coisas como dado que pode enganar, mas sim de não aceitar aquilo que é transparente ou aquilo que serve de comprovação, ou de não aceitar os dados da ciência. E, nesse agir de recusar o que é evidente, substituem amplamente a ciência pelo obscurantismo. Em matéria de produção do conhecimento, almejam uma escola orientada totalmente contra a discordância e que não tenha o foco voltado para a assim chamada cultura desinteressada, que é tão relevante para o desenvolvimento de cada pessoa e da inteligência.

Esse analfabetismo que se situa além do analfabetismo funcional detesta o direito à diferença sem prezar, no entanto, a igualdade.

Em política, esse novo(?) analfabetismo não julga, simplesmente aceita a coisa, mesmo que essa seja deplorável, tosca e desumana: já há os chefes que pensam pelo e para o novo(?) analfabeto. Essa ausência de autonomia para discernir, auto imposta por aqueles que se encontram além do analfabetismo funcional, os aproxima do objetivo que direcionava a educação do estado nazista (Staat Hitler): crer, obedecer, combater. Porque não julga e não desenvolve a crítica, aquele que se encontra além do analfabetismo funcional não tem qualquer escrúpulo em divulgar as notícias falsas (Fake News) e em atribuir ao chefe qualidades que esse não tem. Alguns deles não hesitariam em adotar a consigna do princípio do chefe: O führer tem sempre razão.

O contingente que sofre e ao mesmo tempo alimenta o analfabetismo além do funcional está aí. Não é de surpreender que vários de seus membros apresentem diplomas e títulos acadêmicos, embora gostem com enlevo do senso comum. Diante do desenvolvimento da ciência, da técnica e do cultivo do espírito, esse além do analfabetismo funcional é um descompasso civilizatório que alimenta formas despóticas de governo.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Homenagem que se impõe

 




Hoje, a Secional da Bahia da Ordem dos Advogados, com repercussão nacional, presta homenagem a Luiz Viana Queiroz, Vice-Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.

Luiz Viana tem sido vítima de notas plantadas na imprensa, inclusive redes sociais, que transmitem falsa caracterização de seu posicionamento político.

Em verdade, aproveitando-se do fato de o Vice-Presidente do Conselho Federal alertar e afirmar que a OAB não deve ser partidarizada, dizem que ele deseja apoiar o governo.

Ora, de sã consciência, ninguém quer ver a OAB transformada em aparelho. Mas, embora sem partido, ela tem o dever político de “defender a Constituição, a Ordem Jurídica do Estado democrático de Direito, os direitos humanos, a justiça social, e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e instituições jurídicas”, como consta de seu estatuto.

Luiz Viana, integrante por mais uma vez nos Conselhos Seccional e Federal da OAB, seu hoje Vice-Presidente, tem demonstrado empenho na defesa da democracia e participado ativamente dos embates daqueles que não querem ver a liberdade perecer.

Servem à opressão os que mentem para calar a voz do Vice-Presidente, e todos aqueles que, à míngua de compreensão quanto à atual conjuntura, teimam na tentativa de desqualificar pessoa que mantem, propósito de defender os avanços da liberdade, como sempre tem feito. E, assim, é maior e melhor que notícias plantadas.



Nossa Solidariedade a Luiz Viana.



Ruy Hermann Araújo Medeiros

Osvaldo Camargo Júnior

sábado, 10 de abril de 2021

1964 DC, 31/03

 Ruy Hermann Araújo Medeiros


Publicado originalmente no Ruy Medeiros | 1964 DC, 31/03 | BLOG DO ANDERSON

Renitentes, que nisso se tornaram por força de engajamento em projeto autoritário, ou por incompreensão, ou por força do desconhecimento da história, teimam em comemorar o Golpe de 1964. Comemorar a retirada inconstitucional de um Presidente já é algo difícil de aceitar. 

 

Mas os renitentes, no fundo, comemoram a covardia da tortura de encarcerados, o crime do fazer desaparecer pessoas, o legado da ampliação do latifúndio e da brutal concentração de rendas, a censura a jornais, rádios, revistas e televisão, e aumento da dívida externa. Esse legado da ditadura deve ser comemorado? Li a Ordem do Dia do Sr. Ministro da Defesa. É escárnio ele dizer que a ditadura foi necessária para que tivéssemos a liberdade de hoje. Deve-se retificar essa falsidade. A luta contra a ditadura construiu essa quota de liberdade (pequena ainda) que temos hoje.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do BLOG DO ANDERSON

sexta-feira, 12 de março de 2021

os lucros bilionários do Bradesco e a programada humilhação em Vitória da Conquista

 

Ruy Medeiros | os lucros bilionários do Bradesco e a programada humilhação em Vitória da Conquista

Foto: BLOG DO ANDERSON

Ruy Medeiros

Os meios de comunicação divulgaram os lucros dos bancos, dentre os quais o Bradesco, logo que foram conhecidos e divulgados pelas respectivas instituições financeiras.  Para o Bradesco, segundo maior banco privado do país, seu lucro líquido recorrente alcançou 19,458 bilhões em 2020 e 6,801 bilhões no quarto trimestre.  Nota de seu presidente executivo destaca que (eles!) “Estamos bastantes satisfeitos com o resultado do quarto trimestre do ano”. Poderia estar insatisfeito? No entanto não acredito que estejam satisfeitos muitos e muitos daqueles que mantêm contas no Bradesco. 

Quem se dispuser, pela manhã, descer a rua Maximiliano Fernandes, em Vitória da Conquista, onde se encontram duas agências do Bradesco pode observar às portas, sobretudo da agência 0270, um exemplo de descaso e humilhação que possui forte aparência de programada.

De que se trata?

A fila é grande, fica exposta ao sol causticante, as pessoas ficam aglomeradas e não se percebe a adoção da prioridade ao idoso. Troca-se a aglomeração interna pela externa, em tempo no qual grassa o COVID-19. É um ajuntamento.

Não estou insinuando qualquer amizade entre Bradesco e COVID, porém não há suficiente hostilidade. Eu mesmo, diante de fila aglomerada, propus esperar, fora dela, até a então última pessoa e, com a entrada dessa, penetrar na agência. Sou idoso. Por três vezes tentei, mas não consegui penetrar no banco e resolver um direito, preservando a prioridade. A justiça certamente será o caminho, que trilharei.

Mas é preciso retomar o foco: os 19,458 bilhões de lucros do Bradesco. Eles não são suficientes para que esse banco trate bem seus correntistas? Por que o Bradesco faz tanta questão dos depósitos de benefícios da Previdência Social? Por que fica à espera de concessão de aposentadorias para obter a conta? Incentiva tanto os empréstimos consignados? Por que, com toda ânsia de obter contas não trata bem os correntistas?

Os lucros exorbitantes não dão para pagar toldos, para que as pessoas não penem ao sol? Os lucros exorbitantes não são suficientes para que o Bradesco adapte o estacionamento vizinho (seu) para abrigar, com distanciamento exigido pela situação, seus clientes? Não são os lucros suficientes para que o banco destaque funcionário para distribuir pré-senhas, inclusive aos prioritários, utilizando seu estacionamento devidamente provido de toldos para atender com o mínimo (deve ele o máximo) de decência seus correntistas? Não pode alertar sequer, com orientadores, para os riscos de aglomeração?

Não é ensaio de capitalismo selvagem. É ele.

*Ruy Hermann Araújo Medeiros é professor e Conselheiro Secional da OAB

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do BLOG DO ANDERSON

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Anote

 


Ruy Medeiros



Dia 26 de novembro, quinta-feira, para o domingo seguinte (29/11) estava programada a realização do segundo turno de eleição para Prefeito Municipal de Vitória da Conquista, e o bairro Nossa Senhora Aparecida presenciou evento que lembra velhas eleições municipais.

Em salão pertencente a sobrinho do Vereador Bibia (MDB), atendendo convocação oral, um grupo de cerca de 100 pessoas reuniu-se a fim de escutar uma promessa: O Prefeito Municipal daria título de propriedade a 804 famílias residentes no bairro Nossa Senhora Aparecida.

No início da reunião, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social, gerente do CRAS – Centro de Referência da Assistência Social e pessoa responsável por Regularização Fundiária, deram a ordem: “é proibido gravar falas e imagens”. Por que isso? Certamente os agentes públicos tinham consciência de que havia algo incomum na tarefa de que foram incumbidos. Afinal de contas, a administração dispôs de quase quatro anos para providenciar os tais títulos de propriedade, o período era de ebulição eleitoral, as autoridades sanitárias do município exortavam às pessoas que não promovessem aglomerações.

Fato desse tipo pode ensejar ajuizamento de Ação de Impugnação de Mandato Eletivo pois, examinado, dele pode decorrer convicção de que a ação caracteriza abuso de poder. 


Eduardo Meira de Araújo

  Homenagem a Eduardo Meira é de sempre. A deste momento é diferente pelo tipo de sentimento: a perda. Ontem, Eduardo faleceu e foi s...