quinta-feira, 10 de dezembro de 2015




Domício Campos expõeno Espaço de Arte de Edméa Ribeiro


Estilista e vocacionado para as artes, Domício Campos mostra seu talento na Galeria de Arte Edméa Oliveira com a primeira exposição pública de seus quadros, a partir de sábado próximo, dia 12, permanecendo até 14 deste mês.

Cerca de vinte telas estarão expostas. Nessas, Domício preocupa-se com o impacto de cores fortes, porém harmoniosamente combinadas, com motivações que vão de sugeridos florais a recortes humanos.

Certamente o artista foi capaz de dar forma e personalidade às influências que a pintura a partir dos anos setenta vem deixando, como a expressar a mudança na sensibilidade que se vem experimentando diante da enorme visualização que a técnica permite de muitos estilos ao mesmo tempo, mesmo que isso ocorra de forma não consciente por inteiro.

O fato de experimentar estilo como profissão marca algumas telas de Domício, que induzem o sentimento do uso em ambientes previamente trabalhados para recebê-las, ou no mínimo, espaços cujo usuário que dar um toque estético.

Vale a pena conhecer a obra que Domício Campos vem construindo laboriosamente, constituindo-se como artista que é da tela e do desenho da veste.
           
                                                                                               (Ruy Medeiros)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Ruy Medeiros- blog do Paulo Nunes

Outro patrimônio



* Ruy Medeiros
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O esquecimento não deve ser o apagamento da história.
A Subsecção da OAB de Vitória da Conquista é fruto de uma construção coletiva de advogados, muitas vezes com o apoio de muitos não profissionais do direito.
Nascida do esforço inicial de três advogados (Ruy Medeiros, Ariene Meira e Cassiano Bittencourt Ferraz), que fizeram as primeiras convocações de colegas para sua criação, a Subseção logo passou a ser reinvindicação de outros, não se podendo olvidar as figuras de Pedro Bittencourt Ferraz, Coriolano Sales (que seria seu primeiro presidente), Eliezé Santos e Rinaldo Luz Carvalho.
Com esses, outros se aproximaram, com maior ou menor ênfase, assumindo a luta: Élquisson Dias Soares, Vicente Cassimiro, Evandro Gomes Brito, Uady Barbosa Bulos, Nilton Gonçalves e Orlando da Silva Leite.
A Subseção foi criada. Coriolano Sales (Cori) foi seu primeiro presidente, que seria reeleito.
Implantou a Subseção, fê-la ouvida, lutou pela melhoria da comarca e não se omitiu em defesa da democracia que era uma das lutas da OAB.
Iniciou a Biblioteca da Subseccional. Seus sucessores imediatos, Eliezé Santos e Rinaldo Luz de Carvalho buscaram dar continuidade aos trabalhos da OAB, ampliando-os, cuidando de equipar a sede provisória da OAB Subseccional, sempre pronto a atender colegas, encaminhando pleitos para a construção do Fórum da Comarca, etc.
Em gestão de Eliezé foi adquirida, no Alto da Boa Vista, extensa área, correspondente a uma das áreas institucionais de referido loteamento, para construção do clube dos Advogados/Sede da Subseção.
O signatário, então secretário da Subseção, localizou possível área para aquisição, minutou projeto de lei municipal e escritura de doação por parte do Município, e a diretoria e outros colegas dirigiram-se ao então Prefeito Municipal, Gildásio Cairo, para conseguir a doação do imóvel.
Na Prefeitura Municipal contaram com o apoio da excelente colega Iara Cairo, Chefe de Gabinete, que convenceu o Prefeito, seu pai, a encaminhar projeto de autorização à Câmara Municipal e, depois, firmar escritura pública de doação do referido terreno à OAB. Coube a Eliezé Santos contratar arquiteto para o projeto do Clube e Sede.
O Sucessor de Eliezé Santos, Rinaldo Luz Carvalho, iniciou a edificação do clube. Cercou área, e deixou pronto o primeiro dos módulos dos quatro previstos e iniciou alicerces, e construção do amplo salão de eventos.
O administrador do clube/sede foi Wilson Moreira, que promoveu eventos, buscou recursos, e manteve ativa a obra de construção. Isso teve continuidade nas gestões de Uady Bulos, e do signatário. Este conseguiu a estrutura e telhas como contribuição de empresa local, piso e esquadrias para portas e janelas.
Construído o módulo de eventos, concluído na gestão de Ubirajara Gondim Ávila e de Jorge Maia, responsável igualmente pela continuidade de obras, utilização do espaço, efetiva implantação de varas, empenho junto a juízes para aumento de produtividade.
Apesar de esforços de vários diretores, como Gilberto Dias Lima, Ronaldo Soares e Paulo de Tarso (este construiu a piscina e campo de futebol), em determinado momento o clube foi abandonado, era difícil mantê-lo, deve-se reconhecer, porém isso não era impossível.
Presidentes como Jorge Maia o comprovam com sua ação de manutenção do clube em funcionamento. Gilberto e Paulo contaram com auxílio de colegas que, mensalmente, pagavam vigilante e manutenção do clube.
A evidência da obra vem por conta de duas coisas: a) mostrar como os advogados empenharam-se em objetivo comum e custearam, de diversas formas, a Subseção.
Esta vivia financeiramente com dificuldades, pois contava naquele período apenas com parte da “taxa” de assistência judiciária recolhida em cada processo e eventualmente com contribuições da Seccional, ou de outra origem.
Em certo momento, por exemplo, Coriolano Sales, já Deputado Estadual e Presidente da Constituinte Baiana/Assembléia Legislativa, conseguiu do órgão que dirigia boa contribuição que foi utilizada na obra do módulo do Clube dos Advogados.
Hoje, felizmente, todas as Subseções recebem transferências de recursos da Seccional, proporcional ao número de advogados e de adimplentes naquelas respectivamente inscritos.
Acresce que atualmente as despesas fixas das Subseções são custeadas diretamente pela Seccional, o que durante muito tempo não ocorreu; b) deixar consignado que com recursos da venda do Clube dos Advogados/Sede da Subseccional foi adquirida, por decisão de assembléia, a nova sede da Rua Rotary Club, inclusive contando com auxílio da Seccional.
Colegas como Fábio e Gutemberg Macedo cuidaram da adaptação da casa existente no local e construção do auditório, com recursos decorrentes do patrimônio anterior da OAB/VC.
Mas não se desconhece o empenho de ambos no processo de aquisição e construção. Haveria limitação de informações se não se considerasse a existência de anterior patrimônio.
A OAB possui outro bom imóvel: é o prédio onde funciona o órgão municipal de defesa do consumidor, cuja aquisição ocorreu, pela Seccional, no final da gestão de Thomas Bacellar. Coube a Ronaldo Soares reformá-lo e adaptá-lo para sede da OAB, que aí funcionou por algum tempo, com apoio decisivo da Seccional.
A gestão de Dinailton Oliveira que sucedeu a Thomas Bacellar reformou o prédio e o mobiliou.
Mas parece-me que há um grande patrimônio da OAB que não pode ser esquecido (apesar da destruição de parte de seu acervo documental escrito e fotográfico, não se sabe detalhes disso): a sua luta junto à sociedade e suas entidades.
Não se esqueça a constante luta de todas as diretorias para o aperfeiçoamento do judiciário e correlatas.
Dentre as lutas, aquela da construção do Fórum local, contendo conjunto de salas e pequeno auditório destinados à OAB; edificação da sede da Justiça do Trabalho, na Travessa João Pessoa; criação de novas varas e campanha pela remuneração digna dos juízes (sim, a OAB entendia ser atentório à dignidade o subsídio pago a juízes e lutou por melhor remuneração e independência desses; na metade da década de 70 e metade da década seguinte, um juiz recebia menos daquilo que era pago a um Caixa do Banco do Brasil, pela corrosão de seus subsídios).
Não se olvide a luta contra a violência policial imensa travada pelas diversas diretorias (na gestão do signatário essa foi enorme, e no semestre final da gestão de Gilberto Dias Lima ocorreram fatos sérios envolvendo a Polícia Civil que o presidente, com auxílio de colegas, soube denunciar e cobrar providências).
Não passe desapercebida a defesa de grupos sociais em situação desvantajosa: é inevitável lembrar o apoio à luta dos pequenos proprietários rurais por seus direitos, quando da construção da Barragem de Anagé, a luta em apoio aos trabalhadores quanto à desapropriação e assentamento na Fazenda Amaralina (Santa Marta); a luta incansável (o secretário de então, Alfredo Nova, à frente) pela redistribuição das casas do Conjunto URBIS VI (havia ocorrido fraude na seleção dos candidatos à aquisição dos imóveis do conjunto).
O apoio aos atingidos pela violência policial é algo que deve ficar na memória dos advogados, a exemplo da chacina do Alto da Colina, quando colegas, dentre os quais o autor desta nota, Rogério Brito, Marco Antônio Oliveira e João Nascimento, Presidente da OAB (Gutemberg), Defensoria Pública e juízes das varas criminais se uniram para dar um basta à tentativa de continuidade dos atos de chacina. E tantas outras lutas: patrimônio de nossa OAB e dos Advogados.
Durante algum tempo, o diálogo entre juízes e OAB, com sua credibilidade, mesmo sem abrir mão da crítica às precariedades do judiciário, não necessitou, como ocorreria depois, de medidas de representação contra Juízes de Direito.
Por outro lado, até finais da década de 80, não houve fato grave suficiente a ensejar representações, exceto em um caso em que colega dirigiu-se ao TJ contra uma magistrada.
Quando se fala em credibilidade lembre-se de uma OAB que passou nacionalmente a ocupar grandes espaços na luta pela democracia, transformando-se em porta-voz da sociedade brasileira que pugnava por liberdade.
Não posso deixar de registrar aqui o papel solidário da OAB local junto a milhares (já) de pessoas que foram atendidas pela Assistência Judiciária, com orientação, aconselhamento e ajuizamento de ações.
As sucessivas diretorias a mantiveram com auxílio de inúmeros colegas e dos funcionários, tendo-se destacado, entre outras colegas, nesse grande serviço, as advogadas Iris Pinho e Marizete Prates, às quais deixo registrado meu apreço.
Que das eleições próximas emerja uma diretoria capaz de dar continuidade a esse grande patrimônio histórico, social e moral da OAB de nossa Subseção.
Ao trabalho.
*Ruy Medeiros
Conselheiro Federal da OAB
Ex-Presidente da Subseção da OAB/VC
Ex-integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-BA
Professor do Curso de Direito da UESB

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

http://www.blogdoanderson.com/

Eleições OAB: Ruy Medeiros oficializa manifestação de apoio



Foto: BLOG DO ANDERSON
Foto: BLOG DO ANDERSON
Aproximam-se eleições no âmbito da OAB. Os advogados serão convocados para eleger aqueles que dirigirão o destino da entidade para o próximo período administrativo trienal que deverá ter início em 2016. É muito bom verificar o interesse que as eleições da OAB despertam entre os advogados, acadêmicos de direito e na sociedade. Isso revela a importância da entidade e o apreço com que é considerada (é instituição com grande índice de credibilidade segundo apuração feita por agências de pesquisa). É alentador o fato de não haver desinteresse ou apatia diante do pleito que se avizinha. 
Somo minha vontade ao desejo de muitos que querem ver Ubirajara Gondim de Brito Ávila candidato a presidente da Subseção de Vitória da Conquista da Ordem dos Advogados do Brasil. Sei que ele será candidato seguro e adequado para as atuais circunstâncias, que exigem participação, diálogo, luta árdua pelas prerrogativas dos advogados e a defesa do Estado Democrático de Direito, com o aperfeiçoamento do aparato legal e operacional que essa tarefa pressupõe.
Bira, seja candidato.
Ruy Medeiros

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Finalmente reeditada obra poética de Camilo de Jesus Lima.


Ruy Medeiros

Obra Poética (2 Volumes) de Camillo de Jesus Lima

Lançamento: Dia – 11 de setembro
Hora – 19:00 h
Local – Câmara Municipal de Vitória da Conquista

Camilo de Jesus Lima nasceu em Caetité, Bahia, em 9 de setembro de 1912, e faleceu em 28 de fevereiro de 1975, em Itapetinga, Bahia.
Camilo foi grande poeta, autor de boa crítica literária, de crônicas, de romance (inédito). Em 1942, ganhou, com o livro “Poemas”, o prêmio Raul de Leoni, da Academia Carioca de Letras.
O poeta evoluiu de uma poesia intimista (em que o sentimento de saudade predomina amplamente) para a poesia social mais afirmativa dentre os poetas baianos contemporâneos, especialmente os versos publicados em jornais locais, muitos dos quais reunidos em “Cantigas da Tarde Nevoenta” e as “Trevas da Noite estão passando” (este em colaboração com Laudionor Brasil).
Sua prosa foi publicada em vários jornais e revistas, algumas de circulação nacional, como é o caso de Vamos Ler, O Malho, e Leitura (esta, importante publicação cultural editada no Rio de Janeiro).
O Poeta esteve em grande evidência nas décadas de 1940 a 1960, quando ativamente veiculava textos em jornais. Mas a edição de seus livros, financiada por amigos ou custeada por si mesmo, não excedia de 300 exemplares e isso não permitia ampla circulação. Depois, a ditadura não queria poesia libertária. A censura imperou. Foi preso e vigiado
Camilo combateu o nazismo. Uma das primeiras reações contra a invasão da Polônia pela Alemanha (1939) é seu poema “imortal”, que mereceu agradecimento do Embaixador polonês no Brasil. Cantou a paz, a solidariedade, a igualdade social, mas sobretudo o amor e a liberdade.
A re (edição) da obra de Camilo, que organizei (preservando cronologia e introdução de José Mozart Tanajura) foi realizada pela Editora da Assembléia Legislativa da Bahia, (parabéns, Marcelo Nilo e Délio Pinheiro!) antecedida de esforços desenvolvidos pela Cada da Cultura, filhos de Camilo, amigos e admiradores (Carlos Jehovah à frente), José Raimundo Fontes, Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista e Edições UESB.
Os dois volumes que serão lançados trazem o que Camilo enfeixou em livros e editou. Ficam fora, por enquanto, obras importantes como Cancioneiro de Vira Mundo, Poemas Satíricos, Velhos Temas, Socaite em três variações, Tristes Memórias do Professor Mamede Campelo, Crônicas e Artigos, etc.
Vale a pena – e muito – editar o restante da obra, especialmente Cancioneiro de Viramundo (poesias) e Tristes Memórias do Professor Mamede Campelo (romance)
A Balada de Vira Mundo
(Camillo de Jesus Lima)

Me solta, gente, que eu quero atravessar a fronteira,
Eu quero ouvir saudades cantadas, choradas, suspiradas,
Molhadas de suor, na segunda classe, onde os emigrantes fazem mútuas confidências.                                            
Eu quero sentir o vento levantando-me os cabelos,
Eu quero encher meus pulmões com o ar puro dos campos.
Eu quero jogar o resto de tabaco do meu cachimbo nas ondas revoltas.
Que quero ver os olhos dos que procuram devassar os horizontes longínquos na ilusão de verem lenços acenando,
- Olhos tristes que lembram noites de amor e que geram poemas.
Me solta, gente, que eu quero atravessar a fronteira.
Eu quero ver se o beijo de Amor, que mora em Changai e bebe chá na taça amarela de porcelana.
é mais doce que o de Dolores que morreu na rua de Madrid, acenando o lenço vermelho no ar, como se fosse uma serpente de sangue.
(O beijo de amor pode ser mais doce, mas nunca há de ser selvagem como o de Vera,
Que uiva de amor como a loba ferida no gelo da estepe).
Me solta, gente, que eu quero ir com Wanda, por este mundo a fora,
Como dois ciganos sem rumo e sem destino.
Eu quero ver os olhos de Sara perdidos no cais como duas estrelas negras.
Eu quero respirar fumaça naquela taverna escura de Manilha.
Eu quero comprar corais daquele marujo cor-de-cobre
Para que eles pareçam no colo alvo da minha Pecadora,
Marcas sangrentas que meus dentes fizeram.
Me solta, gente, que aquela menina araucana, morena, de olhos pretos está me dizendo que o mundo é muito grande,
enquanto os Andes parecem pontos de admiração enormes, de cabeça para baixo,
com pingos de condores quase invisíveis, no alto, parados.
Me solta, gente, que os trilhos dos trens de ferro estão escrevendo meu destino no dorso infinito da terra.
Me solta, gente, que a brisa do mar está me chamando,
Me chamando,
Me chamando...





segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Não é demais dizê-lo.

Ruy Medeiros

Em momentos de instabilidade ou de crise, o espírito crítico parece refluir em muitas pessoas e para essas parece ser desnecessário analisar com maior critério fatos e fenômenos. Não surpreende, no contexto atual, que surjam ataques isolados à Ordem dos Advogados do Brasil: alguns são reveladores do interesse de instrumentalizá-la; outros revelam a sobreposição de um desejo, que justifique acusações infundadas, sobre a realidade.
A OAB tem por finalidade “defender a Constituição, a Ordem Jurídica do Estado democrático de direito, os direitos humanos, a justiça social, e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas”. E também: “promover, com exclusividade, a representação, a defesa, a seleção e a disciplina dos advogados em toda a República Federativa do Brasil”.
O Conselho Federal da OAB é extenso: seu pleno é composto de três conselheiros de cada unidade federativa e dos seus ex-presidentes (membros honorários vitalícios).
O grande número de integrantes do Conselho Pleno tem tido como contrapartida grande diversidade de orientações políticas e jurídicas. Há Conselheiros do PSOL, DEM, PT, PSDB, dentre outros, e sem filiação partidária. As decisões do Conselho são antecedidas de debate democrático, e devem ser implementadas pela Diretoria, coletivamente.
A OAB não tem deixado de manifestar-se sobre a situação atual. Também não tem-se aliado a esse ou àquele partido político. Quem a acusa de aliança ou omissão deve apresentar fatos concretos. Mas certamente a OAB não será instrumentalizada. Decidirá sempre após ampla discussão interna, sem prejuízo de interlocução, na sociedade, com outras entidades.
É preciso sempre defender a OAB dos ataques sem fundamento e isso cabe a todos nós, advogados.

Não é demais dizê-lo.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Senhores, Tirem sua máscara


Senhores, tirem sua máscara
Ruy Medeiros
Era o ano de 1990, os senhores lembram-se disso por que se tornou data odiosa para os senhores: ano de aprovação de uma lei que, dentre outras coisa, diz assegurar às crianças e aos adolescentes “todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade”. Dizia e diz a mesma lei que é “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar”.
Com a lei, que mudava o caráter da política simplesmente repressiva e buscava por fim às FEBEMS da ditadura militar, atualizando a democracia burguesa no Brasil, em relação a crianças e adolescentes, os senhores nunca concordaram. O boicote à lei  foi a medida que os senhores adotaram e por isso combateram os Conselhos Tutelares, nada fizeram pelo direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer, odiaram cada unidade de atendimento.
Era de sua obrigação, senhores, fazer cumprir a lei. Preferiram descumprí-la: nada de casas de acolhimento, nada de local para receber o adolescente apreendido, nada de lugares adequados para aplicação de medidas  sócio - educativas. Passaram a divulgar que não havia qualquer punição prevista em lei contra adolescente que praticasse ato infracional, mentindo, mentindo sempre, para testar (?) a máxima da propaganda goebeliana segundo o qual uma mentira muito repetida vira verdade. Não vira, transforma-se em crime.
Depois de nada fazer para aplicar a lei e a política de sua própria democracia burguesa, os senhores dizem que o Estatuto da Criança e do Adolescente não deu certo. Não o aplicaram simplesmente. Sempre desejaram as FEBEMS, a prisão de adolescentes flagranteados, ou não, em masmoras onde estão depositados adultos que, por sua vez, de acordo com seu pensar, não devem ser tratados como pessoas, mas de acordo com a lei do Talião de épocas do despotismo oriental, tão invejado pelas mentes obscuras dos senhores.
E a omissão, senhores, diante de milhares de jovens assassinados, torturados apedrejados? Por que os senhores sempre se calaram diante desse crime? Por que, detendo poder, não pediram sequer protocolar investigação? Nada de CPI para investigar tais crimes: os senhores a destinam a palanque contra eventuais adversários ou interesses, não para indicar meios para resolver problemas nacionais. Calam-se diante de crimes.
Agora, depois de forte exposição na mídia, de atos praticados por adolescentes pobres, de aterrorização  da sociedade, os senhores apontam estatísticas de opinião favoráveis à redução da maioridade penal. A velha manipulação de sempre: a arregimentação de meios de comunicação para formar opinião desejada. Nada melhor para isso que repetir à exaustão fato, revestí-lo com o discurso do ódio.
Omitem que tais atos são infinitamente em menor número que os crimes dos adultos. Apresentem senhores números consistentes! Em verdade as estatísticas de atos infracionais graves cometidos por adolescentes variam entre 1% a 2,0% de todos os atos contra a vida cometidos por todos aqueles  que os cometeram. Isso  significa que entre 98% e 99% dos crimes contra a vida não são cometidos por adolescentes.
Nada de politica de proteção, em outras palavras, os senhores dizem: chibata e cárcere, além das penas já suportadas da miséria e do apartheid.
Tirem sua máscara, senhores.
No fundo, os adolescentes pobres não lhes interessam: não são consumidores e não podem ser reduzidos a mão-de-obra semi-escrava. Os produtores de mercadorias, que os senhores defendem de unhas e dentes, não precisam de não consumidores. Por que iriam protegê-los?
A sua própria política de segurança segue a lógica da mercadoria e da exclusão social, como se vê na ocupação militar dos morros e na estigmatização das comunidades, seguida de venda e mais venda de balas, ou na sua mercantilização  na forma de serviços de segurança privados (um enorme exército privado), de cercas elétricas, de monitoramento, à distancia, com o que os senhores revelam o sucesso de sua segurança pública: o enriquecimento dos produtores de canhões, metralhadoras e balas. Sua segurança é tudo, menos um direito social. A sua repressão pura e simples está por isso mesmo transformando-se em prisão, na prisão dos não violentos.
Agora, os senhores preparam o golpe final contra qualquer lei ou política de proteção à criança e ao adolescente, leia-se criança e adolescente pobres. Nada de proteção, dizem os senhores com sua omissão quanto às exigências do ECA e com sua raiva diante deste: masmoras, como as milhares existentes no Brasil; silêncio contra o extermínio continuado de adolescentes já punidos com a miséria.
Senhores, não os salvam a alegação evangélica de alguns dos senhores. Não envelopem seu ódio com religião. Em verdade sua omissão e seu silêncio vandalizaram corpo e coração. Não venham agora com seu costumeiro “olho por olho”.

Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica

Memória do Direito | Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica 17 de setembro de 2026, 8:14 / Anderson ...