A Irrealidade Brasileira
Ruy Medeiros (Digitado, 08/1999)
A
irrealidade passou a ser componente da realidade brasileira. É assim. No Brasil
tudo é possível. Então não vacile em acreditar que a irrealidade faz parte de
nossa realidade brasílica.
Um ministro,
o da saúde, resolve dizer que famosa produtora-apresentadora de programa de
televisão não é bom exemplo para adolescentes porque trombeteou e deu foros de
normalidade à “produção independente” de uma filha. O ministro atribui à
apresentadora a força de desencadear gravidez a torto e a direito (à direita e
à esquerda?): “A exaltação da produção independente estimula meninas de 12, 13
anos a terem filhos”, disse o ministro dentre outras coisas.
A
apresentadora-produtora de programas alienados e alienantes para (e na)
televisão responde ao ministro: “Olha, eu não me casei, viu? Mas eu tenho
condições de criar e educar a minha filha, o que não acontece com a maioria de
nosso povo. Sabe por quê? Porque ele é vítima de políticos que preferem dar
entrevistas de impacto em vez de tomar decisões que melhorem a vida das
pessoas”.
Não pensem
que o escrivinhador destas linhas está a inventar lérias (ou lereias). O fato
aconteceu. O grande número de gravidez entre adolescentes – fato que se agrava
– e a prostituição infantil não tem muito que ver com Dona Xuxa. A contribuição
desta não é diretamente com a gravidez dos outros, mas com o reforço de
condições de alienação, presente em seus programas, em alto grau. A própria
apresentadora televisiva é fruto de alterações ocorridas na sociedade, no
comportamento das pessoas, apresentadas de forma diferente por nossos valores.
Valores morais que hoje justificam uniões consensuais e gravidez fora do
casamento ampliaram-se de um círculo restrito para um ambiente maior. A
aceitação disso também. A situação de desinformação, miséria, analfabetismo,
alienação, etc., contribui para que pessoas que não têm condições de criar e
educar seus filhos “partam para a produção independente”. Mas o fato radica
numa realidade social propícia a escolhas não livres por parte dos pobres.
Mas soa
irreal ouvir dos lábios da loura televisiva a crítica ao ministro. É evidente
que ele mereceu a resposta. É evidente também que o ministro é um dos
responsáveis pela situação de miséria em que vive a população brasileira,
porque participa de escolha de políticas que têm agravado os problemas sociais.
Mas aquela apresentadora “vive” a crítica?
Acredita profundamente no seu teor? Sabe a conseqüência da crítica? Tudo
leva a crer que não. O ritual aristocrático e nababesco com que cercou o
nascimento de sua filha (e, depois, o aniversário) foi verdadeiro escárnio à
maioria esmagadora das mães, num país em que muitas destas fazem parto em filas
de hospitais mantidos pela pasta do ministro da saúde (direta ou indiretamente).
A crítica da apresentadora teve sentido, mas não induz a que as pessoas
imaginem que ela pense de acordo com a crítica que fez. Isto é, trata-se de uma
irrealidade tão grande quanto a afirmativa do ministro. Também é irreal dizer
que “criança” é produção. Gente não é mercadoria!
A irrealidade
não fica só no debate do ministro com a apresentadora; permeia grande parte dos
discursos. Recentemente, um senador que cresceu à sombra do regime ditatorial e
que patrocinou escandaloso auxílio a uma das maiores empresas do mundo (com
dinheiro e recursos que o governo não tem para atender à “produção independente” de mães pobres)
resolveu ser paladino verbal da erradicação da miséria em solo brasileiro.
Criou grande rebuceteio. Então, aquele homem que apoiou a ditadura militar
(miséria desumana que aumentou a miséria social) agora é o condutor dos povos à
redenção? Estranho. Tudo soa irreal. Quando aquele senador atuou politicamente
em defesa da população pobre? O que Xuxa falou do ministro aplica-se bem àquele
senador? Mas se o fato é irreal – no sentido de que não induz credibilidade –
também irreal (fruto da falta de análise séria) é o discurso de apoio ao
“discurso” senatorial do novo defensor do povo feito pelo Sr. Prof. Cristovam
Buarque, presidenciável do PT. Ou o ex-reitor da UNB não acompanhou (nem
conhece) a trajetória daquele senador, ou não sabe ler nas entrelinhas do
“plano” de combate à pobreza ou simplesmente não tem projeto alternativo a
remendos demagógicos.
Custa crer.
A irrealidade
campeia e agora tem textura de suspense (talvez pelos cem anos de Hitchcock).
Qual o próximo lance? Qual a seqüência? Que cena imprevista virá?
Mal pensa o
articulista terminar sua meia página e vê e ouve e ouve e vê um senador pregar
o calote da dívida interna reconhecida judicialmente (pagamento de
precatórios). Ou seja: União, Estados e Municípios não devem pagar direitos
reconhecidos em sentenças condenatórias já irrecorríveis. O Presidente da
República, de logo, diz não ter detalhes, mas apoia a idéia a princípio.
Vejam só:
Trata-se de desrespeitar sentenças transitadas em julgado, na forma de execução
prevista em lei (precatórios). Uma ofensa às leis que eles próprios, burgueses,
criaram. Muitos destes grandes precatórios são decorrentes de condenações
trabalhistas (diferenças salariais, direitos econômicos não pagos por entes
públicos, etc.), inclusive pelo Estado da Bahia, o qual deve e recusa pagar
vários precatórios. Chega-se à seguinte situação: Sentença contra o poder
público não vale nada: Viva o calote! E o presidente (a quem a lei burguesa
atribui precipuamente a defesa da Constituição) prega contra esta ao apoiar, em
princípio, a proposta de um senador baiano. Proposta, aliás, conveniente ao
Estado da Bahia que deve muito a seus servidores em conseqüência de sentenças
que reconheceram aquele estado descumpridor de obrigações e o condenou a
pagá-las.
Não parece
que se está no mundo da irrealidade? Por que não deixar de pagar a dívida
externa aos banqueiros internacionais? Não iria o poder público gastar muito
menos estancando a sangria de juros pagos pela dívida externa? Quem sabe não
será esta a próxima seqüência do filme ficção-realidade?
Tudo muito
bem: Cobram-se créditos na Justiça contra o poder público. Este é condenado a
pagar. Recebe precatório, feita a quantificação da sentença, diz que
provisionou recursos no orçamento seguinte, não paga nunca. O jogo é um faz
de conta. Para acabar com isso declara-se abertamente: Não pago! E a
“Justiça” fica com cara de pau. Os burgueses rebelam-se contra suas normas?
Toda essa
irrealidade brasileira encaminha ideologicamente para um populismo específico,
que recusa o Estado de Bem Estar Social (Welfare State), mas começa a sentir as
limitações do neoliberalismo nas relações do Estado com a massa no mundo pobre.
Está-se gestando em círculos burgueses um novo movimento político com vistas à
inquietação social. Aqui e ali aparecerão discursos desse novo populismo de um
Estado forte (“gente decidida”, lembram-se?) que tenha um plano de erradicação
da pobreza. Um duce? A construção desse discurso é algo real. Infelizmente
real.
( A Alfred
Hitchcock, in memoriam, cujo suspense
foi superado pelo suspense da violenta irrealidade brasileira mistificante, no
ano de seu centenário).
Nenhum comentário:
Postar um comentário