segunda-feira, 8 de outubro de 2018
sábado, 6 de outubro de 2018
A Farsa
A
Farsa
Ruy Medeiros
Institutos
de pesquisa anunciam, quando divulgam intenção de voto em candidatos ás
eleições que devem ocorrer no próximo domingo, que a maioria de eleitores com
formação superior declara voto em um capitão da reserva remunerada do exército,
de fama recente, alicerçada em dizeres preconceituosos e em um grito (todos os
canais televisivos e todos os microfones das rádios escancarados) de carinho
(voltado ao passado), solidariedade e identificação a um coronel que se
notabilizou por chefiar o DOI-CODI em cujos porões torturavam-se pessoas ou
maquinavam-se “desaparecimentos”.
A
mensagem é clara: “os bem letrados, os bem dotados do saber, o que têm
(suposta) legitimidade da voz”, os ricos de conhecimento, aqueles que
efetivamente sabem o que dizem, em sua grande maioria, já declaram o que pensa
a inteligência nacional. Os doutores já disseram em quem votar!
As
emissoras de TV, sobretudo, e outros meios de comunicação, bradam
retumbantemente o dado da pesquisa: quem sabe das coisas (os doutores) já optou.
Alguns, é claro, agem de forma subliminar.
É
a farsa é espalhada aos quatro ventos. Não se faz nenhum cruzamento entre
classe social e os doutores, entre idade, classe e “doutores”, nenhuma análise.
No fundo, o que se verifica é que membros da classe mais abastada e de setores
da classe média alienada, diante da crise, têm medo. Querem um militar que,
como em 1964, faça um governo de exceção.
Mas
serão mesmo os mais instruídos? Os realmente de formação superior, é por serem
de formação superior que votam no Capitão? Ou será que o fazem por outro motivo
que não a sua formação?
Como
é triste saber que pessoas instruídas coloquem de lado o seu saber para, como
rebanho, seguir a coorte da obscuridade.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
A Patrulha
Ruy Medeiros
Chega-me
aos olhos a troca de mensagem em que duas adultas tecem considerações sobre a
atitude de um comerciante que, em seu automóvel, afixou propaganda eleitoral.
Trata-se de comerciante filho de comerciante, com grau de parentesco com elas,
que trabalha desde criança, é querido na cidade, e ele e irmãos sempre
cultivaram o bom trato com as pessoas. De seu estabelecimento muitas famílias
tiram a sobrevivência.
As
duas adultas referidas, identificam-se como eleitoras de um capitão candidato a
Presidente e chegam à conclusão de que deveriam boicotar e incentivar o boicote
ao estabelecimento da pessoa que colocou propaganda de outro candidato em seu
carro.
É a
patrulha que chega e, algumas vezes, patrulha para transformar-se em SA é
“daqui pra ali”. Assim é que funciona. Não importa a vítima. Na Alemanha
Nazista foram os judeus, os comunistas, os sociais democratas, depois os
homossexuais, a seguir os ciganos e depois todos aqueles que não enjaularam
declaradamente sua inteligência dentro dos objetivos do Führer. É necessário
que a intolerância se expresse. É necessário um bode expiatório, uma
transferência (no sentido freudiano mesmo), uma vazão da desrazão pela falta de
meditação maior sobre o que significa o discurso oportunista do Capitão.
Já
se indagaram sobre a falta de programa do Candidato? Já questionaram sobre a
conveniência da liberação de armas, ou do uso da violência pelo Estado? Já se
perguntaram se é justo discriminar pessoas por suas orientações sexuais ou pela
sua situação e engajamento na sociedade? Qual é mesmo o programa do Capitão?
Ele apenas indica o bode expiatório do momento e em outro momento poderá ser
qualquer bode expiatório e, então, já não haverá o milagre de salvar os Isaacs.
É a solução ali perto da esquina, fácil, ao alcance de todos: escolham um
salvador para destruir o bode expiatório do momento, ou para deixá-lo visível a
fim de ser derrotado.
Além
de embarcar na onda da maré (que parece maré montante), sem espírito crítico,
resolvem os partidários do capitão sugerir a patrulha.
Aqui,
em Vitória da Conquista na década de 1940,após o Brasil declarar guerra à
Alemanha, uma “patrulha” dirigiu-se à casa de dois alemães que aqui residiam,
aqui mantinham respectivas esposas, aqui trabalhavam, conhecidos de todos, com
amigos, e depredou as casas dos dois
boches, que nenhum vínculo tinham mais com a Alemanha e seu führer.
Depois, os patrulheiros não conseguiram mais olhar dentro dos olhos daqueles
germânicos que, aqui continuaram, e onde um deles deixou filhos. Olhar nos
olhos, ter a coragem de fazê-lo passado o vendaval, é prova da correção dos
nossos atos.
É
claro que as duas amigas adultas têm toda a liberdade de votar em quem desejar
votar e engajar em campanha do seu candidato. Têm mesmo a liberdade de deixar
de analisar friamente a situação para optar em quem votar. Mas será ética a
intolerância em relação ao comerciante que têm a mesma liberdade?
Em
1964, o querido Professor Everardo Públio de Castro, do elenco dos bodes
expiatórios de então, foi delatado por defender as chamadas Reformas de Base.
Seu delator depois foi invadido por profunda crise moral. Seguindo a onda
irracional de combate aos adversários da ditadura, delatou exatamente pessoa de
quem antes era considerado amigo. A onda cegara-o.
Política
contém paixão, mas não é apenas isso. E, mesmo assim, que tipo de paixão?
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
Dom Celso José Pinto da Silva
Ruy Medeiros
Faleceu,
em Terezina, Piauí, Dom Celso. Morre no Estado nordestino que o acolheu com
grande camaradagem, quando deixou a Diocese de Vitória da Conquista para viver
sua missão no Arcebispado da Capital do Piauí. Aí, inclusive, foi eleito membro
da Academia de Letras.
Dom
Celso, antes de dirigir a Diocese Conquistense atuou no Rio de Janeiro onde
aceitou o desafio de tomar conta da pastoral ou comissão de presos políticos,
coisa muito difícil nos anos de ódio e terror da ditadura militar que
infernizava a vida dos brasileiros.
Às
vezes Dom Celso rememorava aqueles tempos e falava de Branca Moreira Alves,
leiga Católica, que o auxiliava nos contatos com familiares de preses
políticos, pessoa que deixou profundo sinal de admiração e gratidão de
perseguidos e familiares de encarcerados.
Dom
Celso encontrou a Diocese de Vitória da Conquista em um momento particularmente
complexo. As novas diretrizes do Concílio Vaticano II começaram a ser
divulgadas por Dom Climério Almeida de Andrade, que participou daquele evento,
e do final dos anos sessenta até os anos setenta (do século passado), a
Teologia da Libertação ocupou espaço e foram organizadas Comunidades e
Eclesiais de Base, gerando choques no seio daquela Igreja que fora tão
conservadora. Era difícil a mediação, especialmente quando foi deflagrada a
Greve do Café, no início da década de oitenta, e nos períodos eleitorais. A
alguns incomodava a Comissão Diocesana Justiça e Paz, criada por Dom Climério
Almeida de Andrade para suprir a necessidade de uma voz sobre a questão
politica dos Direitos Humanos.
Celso
José Pinto da Silva deixou exemplo de solidariedade, ética, compreensão e
diálogo e por isso foi respeitado e admirado mesmo por não católicos. Não se
pode deixar no esquecimento que cinco de seus padres diocesanos (alguns que
receberam suas orientações quando ainda eram seminaristas) tornaram-se Bispos
(Valdemir, Zanoni, João, Estevam e Carvalho) e que ele pugnou pela elevação do
Bispado a Arquidiocese de Vitória da Conquista.
Saudade
de todos. Abraço forte a seus amigos.
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
Mulheres em Combate
Mulheres em Combate
Ruy
Medeiros
Mulheres Conquistenses estão convocando uma
passeata/manifestação para o próximo dia de sábado, 29 de setembro, em Vitória
da Conquista, pela manhã. O mesmo, conforme elas asseguram, ocorrerá em várias
partes do Brasil e mesmo em cidades do exterior.
O foco contra o qual as mulheres protestarão no evento de sábado
é Bolsonaro e suas “ideias”.
O capitão candidato cresceu nas pesquisas e isso é preocupante.
Além daquilo que expressa, seu candidato a vice fala em adoção de outra
Constituição sem constituinte e isso, em outras palavras, é anúncio de um Golpe
de Estado. O postulante ao cargo máximo da República, que promete um ministério
fardado, por mais de uma vez indicou que sua referência nas forças armadas é
Carlos Brilhante Ulstra, militar que dirigiu o DOI-CODI, em São Paulo, órgão de
repressão direta maior sob a ditadura militar, responsável por torturas de
presos políticos, jovens de ambos os sexos, adultos, idosos, religiosos ou não
religiosos. Há mesmo, com as torturas, prática de estupro contra mulheres
presas.
O candidato capitão, ou capitão candidato, apresenta como seu
futuro mentor no governo (se for eleito, é evidente), o economista Paulo
Guedes. Na biografia desse há um fato que chama a atenção: serviu na
Universidade Chilena, na era da sanguinária ditadura de Augusto Pinochet,
dirigida por um general fascista, mais precisamente na Faculdade de Economia e
Negócios, a convite de ninguém mais que Jorge Selume, Diretor de Orçamento da
ditadura de Pinochet.
Entre Ustra e Guedes seu coração balança.
As mulheres tomam a dianteira, como ocorreu na importantíssima
luta pela Anistia durante o regime militar: O primeiro comité pela anistia foi
um comité feminino. Hoje são elas que estão na linha de frente nas favelas na
luta contra a violência e pelo respeito aos direitos. Elas geralmente são as
primeiras a denunciar os crimes contra os moradores das comunidades, sobretudo
jovens e adolescentes, e com sacrifício, como ocorreu com Mariele, combativa
vereadora que pagou com a vida as denúncias contra
atrocidades.
O anúncio daquilo que pode ser a proposta ou a efetivação do
Terror do Estado coloca as mulheres em combate.
Vitória da Conquista, 27 de setembro de 2018.
Ruy
Medeiros
terça-feira, 29 de maio de 2018
Que querem esses senhores?
foto:blitz.conquista
Ruy Medeiros
Vejo,
nas ruas de Vitória da Conquista, em plena crise de abastecimento de
combustíveis, “cavalinhos”, caminhões, carros de passeio e motocicletas, em
longas e repetidas carreatas, a pedir intervenção militar. O combustível que
falta às pessoas, ao serviço público, à manutenção da saúde, aos profissionais
em geral, inclusive taxistas, sobra para aqueles que pedem intervenção militar.
Onde, com que privilégio, obtêm o combustível que falta para todos? Isso é
muito estranho.
Que
querem esses senhores? Intervenção militar não é outra coisa senão o
estabelecimento da ditadura, regime que circula entre a crueldade e a covardia.
É a politica de desconfiança e perseguição contra as pessoas, as opiniões, as
artes, a liberdade de expressão e de reunião, dentre outros tantos direitos que
os ditadores suprimem. Esses senhores não apresentam nenhum projeto para o
país, a não ser a repressão contra manifestações sociais justas e políticas
públicas de proteção social. Têm ódio à liberdade de opinião, de expressão, de
criação artística, de pluralismo partidário.
Os
ditadores prendem adversários e sobre esses, presos e indefesos, agem
covardemente torturando-os, matando-os ou fazendo-os desaparecer. Depois, ainda
covardemente, escondem seus atos, negam o que fizeram e providenciam, quando
está iminente o fim de seu ciclo, uma lei de anistia para protegê-los. Audazes
e arrotando coragem assumem o poder, mas covardemente não assumem
responsabilidade por seus atos.
quinta-feira, 15 de março de 2018
Sebastião Castro
Tião
Ruy Medeiros
Em 1973, conheci Sebastião Rodrigues Castro,
Tião. Eu havia sido convidado para ser Procurador Jurídico do Município de por
Jadiel Matos, Prefeito eleito com ampla margem de votos, e ele, como era de
esperar-se, foi convocado para ser Secretário Municipal de Saúde.
Demonstrou, desde os primeiros dias, capacidade
de administrar, liderar e ser possuidor de grande capacidade de perceber o lado
político das situações enfrentadas.
Com poucos recursos, realizou excelente gestão à
frente da Secretaria Municipal de Saúde e ai contou com a valiosa colaboração
de Josué Figueira. Mostrou logo a que vinha: conseguiu que a administração
adquirisse duas unidades móveis de saúde, uma médica e outra, odontológica, com
as quais levava atendimento à zona rural e às escolas.
Tião foi o principal assessor de Jadiel Matos,
mas sabia respeitar a decisão coletiva e gostava de amadurecer as discussões.
Quando da luta pela sucessão da bem sucedida
administração de Jadiel, aceitava uma candidatura de consenso entre os grupos
do MDB, mas isso tendo ficado inviável não teve dúvidas em pleitear sua
candidatura. Em convenção partidária, obteve maioria de votos, porém Raul
Ferraz obteve-os em número suficiente para ser candidato e o MDB, como era
possível na época, concorreu com dois candidatos: Tião e Raul. Raul sagrou-se
vitorioso e foi Prefeito. Sebastião disputaria o cargo por mais duas vezes, sem
sucesso.
Em 1978, comigo e outros, criamos o Semanário o
Fifó, que pretendia ser um jornal alternativo que chegasse a adotar um discurso
e esquerda. Mais da metade das edições de o Fifó foram redigidas e planejadas
em sua residência, em tempo que ele roubava da medicina e de sua família.
Nevinha, sua esposa, recebia-nos, a mim, ao “datilógiafo” Hélio Gusmão, e a
outros que, ás vezes apareciam com solidariedade. O Fifó sobreviveu por 15
edições e Tião foi responsável por alguns artigos e geralmente discutia comigo
os editoriais.
Por duas vezes Deputado Estadual, numa das quais
foi líder de Governo, Tião inaugurou seu mandato com um pequeno estudo sobre a
Região Sudoeste (denominação administrativa), muito bem elaborado.
Embora tendo-se afastado de disputas como
candidato, nunca deixou a política, nem fez desta núcleo para criar inimigos.
Eu mesmo, que passei a militar em outro partido e José Pedral, que fora seu
adversário dentro de MDB e, depois, em outras siglas, sempre mantivemos com
Tião laços de amizade. Dele José Pedral recebeu toda atenção nos tempos últimos
de sua vida.
Continuou lúcido, inteligente, preocupado com
espessa e filhos, com os quais dividia sua amizade com a terra e povo que um
dia o receberam vindo de Ribeira do Pombal com os pais.
É uma vida que merece respeito e gratidão da
maioria de todos nós, mesmo os que divergimos de posições politicas que se
foram formando durante o recuo do governo dos generais e contra esse, um das
quais ele adotou, enquanto outros preferiram caminho mais a esquerda e outros
mais houvessem se distanciado da defesa dos preceitos democráticos.
Meu abraço forte a Nevinha, aos filhos de Tião e
aos muitíssimos amigos que ele deixou.
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