sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Questão prisional em Vitória da Conquista será debatida na próxima segunda-feira.


Na próxima segunda-feira, a partir de 14:00 h até 18:00 h, na Câmara de Vereadores, haverá reunião aberta à participação de todos para tomada de posição quanto à situação do Presídio Nilton Gonçalves.
Como já é de conhecimento de todos, o Presídio Nilton Gonçalves não oferece condições de segurança e de infraestrutura para cumprir com a sua finalidade.
Prédio insalubre, corredores e celas sombrias, rede de esgoto precária, caixa d’água que pode desabar em razão de fissuras em seu apoio, ausência de tela em todos os muros, algumas guaritas sem condição de uso e superlotação, são alguns fatores que tornam o presídio um atentado contra a dignidade e uma vergonha para a comunidade conquistense.
É para buscar solução à questão prisional de Vitória da Conquista que se destina a reunião aprazada para o dia 28 de outubro.
Espera-se sobretudo o comparecimento de advogados, advogados defensores públicos, Promotores de Justiça, Juízes das Varas Criminais, administradores do Presídio, Conselho da Comunidade, estudantes do curso de Direito, e outros.
Compareçam. Divulguem a reunião.



Em Vitória da Conquista, Bahia, há um estabelecimento prisional denominado Nilton Gonçalves, localizado no loteamento Parque Conveima I, quadra 13 (malha urbana).


presidio1. Visão geral.
Se alguém tiver interesse em conhecer como a dignidade humana é violentada e a lei pisoteada pelo poder do Estado deve voltar sua atenção para o Presídio Nilton Gonçalves. As celas do presídio são diminutas. Cada uma deveria abrigar um homem ou uma mulher, embora projetada para dois, mas abriga 4 ou 5 ou mais pessoas (em seu módulo 02, 108 (cento e oito) homens estão distribuídos em 18 celas). Atualmente encontram-se no Presídio 296 pessoas (dado de 20 de agosto de 2013).

O Presídio, além de salas para o serviço da administração e de guarda, compõe-se de 3 módulos de celas, pátios, guaritas, cozinha e refeitório.

2. Módulo 01.

Avulta no módulo 01 a total desumanização, a partir da própria concepção arquitetônica: um corredor escuro, úmido (“não entra sol”), ladeado por celas diminutas.

São 30 celas, uma das quais destinada a visitas íntimas. Como só há duas superfícies elevadas para serventia de leito, presos deitam-se no piso da minúscula cela. O telhado do módulo há muito encontra-se quebrado e há infiltração de água pela laje. A aglomeração em espaço escuro, insalubre, diminuto e úmido transmite a quem vem de fora mal estar difícil de descrever, entre asco, náusea e revolta.

Qualquer administrador que encare seriamente seu cargo ou mandato, se competente para tal, mandaria interditar o módulo 1 do presídio imediatamente.

3. Módulo 02 e 03.


O módulo 02 compõe-se de 18 celas, onde se encontram 108 homens, uma das quais destinada a prisão civil. As celas voltam para um pátio e permanecem abertas durante o dia.

O Módulo 3 foi construído em sistema pré-moldado e não possui controle de proteção suficiente.

4. Módulo feminino.

No módulo feminino 06 celas pequenas (um das quais desativada) e insalubres abrigam hoje 28 mulheres (até há pouco tempo havia 41 aprisionadas). As celas abrem para um pátio, onde as mulheres em dupla alternam banho de sol. Nas celas, as mulheres lavam roupas, pratos e tomam banho. Cada cela foi projetada para abrigar 4 pessoas.

A destinação do módulo como ala feminina foi marcada pela improvisação (não foi concebida para receber mulheres) e não possui berçário. Há pouco tempo, foram ministrados cursos de pintura e de artesanato às presas.

4. Pátios e caixa d’água.

O aspecto de decadência da construção não se revela apenas nas celas, mas é fortemente visível nos pátios utilizados para banho de sol.

No pátio correspondente ao módulo feminino há “boca de esgoto” aberta, infiltração no piso com conseqüente fuga de material. Dos esgotos saem muitos ratos e insetos (há uma ratoeira armada no local e aplicação de raticida). É evidente a insalubridade de todo o conjunto da ala destinada às mulheres, apesar da preocupação dessas com a limpeza.

Os demais pátios apresentam situação semelhante, com bocas de esgoto abertas e visão de água servida.

Num doa ângulos do pátio da ala feminina, a caixa d’água que abastece o presídio anuncia desastre. Há rachaduras na base de sustentação, desgaste do depósito, evidente pressão do peso da caixa sobre parede que apresenta desnivelamento e rachaduras.

No entanto todo o presídio encontra-se varrido e não denota presença de lixo acumulado em suas dependências.

6. Guaritas e Tela.

Há 7 guaritas no Presídio Nilton Gonçalves das quais apenas 03(três) estão sendo utilizadas, por falta de condição de uso das demais, que absorvem o serviço de 40 policiais (10 por turno). Há guaritas com “ponto cego” e seu acesso é feito a partir de fora do estabelecimento prisional (com exceção). Na base de uma dessas guaritas foi recentemente colocada uma banana de dinamite.

Não há tela de segurança sobre os muros, exceto em um deles, considerada inadequada pelos policiais.

A falta de altura suficiente dos muros e a inexistência de telas adequadas permite que sejam arremessados da rua para dentro dos pátios dos módulos 1 e 2 pacotes com drogas, bebidas alcoólicas, aparelhos de telefone celular e armas brancas, e servidores informam que já ocorreu arremesso de arma de fogo.

Cerca elétrica e algumas câmeras de monitoramento encontram-se desativadas. Essa situação de insegurança para todos aqueles que trabalham no presídio já é persistente: em 19 de agosto de 2008, 28 servidores lotados no presídio enviaram relatório ao Ministério Público, denunciando falta de segurança e superlotação carcerária.

7. Alimentação.

Os presos recebem alimentação fornecida pelo Estado por meio de empresa com sede em Salvador. Diretores afirmam ser de boa qualidade, mas os encarcerados não têm a mesma opinião.

A cozinha e o preparo de alimentos dos servidores são terceirizados e as refeições são servidas no refeitório do presídio, para os seus servidores.

8. Situação dos Presos.

Homens e mulheres que se encontram aprisionados denunciam a demora no julgamento de seus processos e mesmo em relação a audiências não realizadas ou ausências a audiências por eventuais falta de escolta.

Especialmente aqueles que são oriundos de outras comarcas, presos provisórios, demonstram revolta com a demora dos atos processuais. (há relatos de presos com 1 ano e meses sem que tenha havido qualquer audiência). Há caso de preso que relata ter sido condenado a cinco anos de prisão e continuar preso por cinco meses além do tempo da pena; outro, que informa ser oriundo de Condeúba-Ba e assegura estar preso há um ano sem ter sido ouvido pelo magistrado.

Há doente em cela superlotada. Na ala feminina há presa que foi fortemente espancada na penitenciária de Jequié.

A forma como se encontram encarcerados aqueles que estão no presídio Nilton Gonçalves, em celas insalubres, superlotadas, atenta contra a dignidade dos presos e contra a lei. Não surpreende que o presídio tenha sido palco de várias rebeliões.

Unidade que deveria substituir o Presídio Nilton Gonçalves teve sua construção suspensa em razão de inadequação no edital de licitação da obra e de sobrepreço.

Desumano, degradante, provocador de asco e revolta é a submissão de homens e mulheres no Presídio Nilton Gonçalves. Se algum escritor desejasse escrever obra semelhante a “O Pátio Maldito”, de Ivo Andric, poderia ali recolher exemplos de como o poder público vem ilegalmente sujeitando pessoas à convivência com ratos.

A situação não é uma forma de tortura?

Vitória da Conquista, 30 de agosto de 2013.

Ruy H. Araújo Medeiros - Conselheiro Federal da OAB, em licença.

Osvaldo Camargo Junior - Conselheiro Seccional da OAB/BA

Ubirajara Gondim Ávila - Conselheiro Seccional da OAB/BA

Naum Evangelista Leite - Integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/VC

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Emiliano José e a Ironia
Ruy Medeiros
Há momentos em que os atropelos na luta pela existência nos fazem atropelar prioridades. É muito grave abandonarmos a prioridade da fala no momento devido. Essa falta nos fere.
Bertold Brecht em seu poema “Aos que vão nascer” (bela tradução de Geir Campos) fala da dificuldade de ser amigo em tempos de opressão.
(...)
“E entretanto sabíamos:
Também o ódio à baixeza endurece as feições,
 também a raiva contra a injustiça
 torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
 que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmo podemos ser.
 Mas vós, quando chegar a ocasião
 de ser o homem um parceiro para o homem,
 pensai em nós
Com simpatia”.
Essa introdução vem por conta de não ter eu expressado antes, em letra de forma, o sentimento que me envolve em relação ao choque entre Emiliano José e Átila Brandão, pastor.
Emiliano José, como vem fazendo há anos, publicou mais um artigo sobre vítimas algozes e fatos da ditadura militar. Dessa vez o fez envolvendo intuição de Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho (Yayá) de que seu filho, Renato Afonso, estaria sendo torturado no quartel da polícia militar, sito no bairro de Dedenzeiros, em Salvador. Mencionado na matéria, Átila Brandão, julgando-se atingido em sua honra, resolveu processar Emiliano José.
Quando o hoje pastor Átila Brandão atuava como policial, eu era estudante do Curso de Direito da Universidade Federal da Bahia. Em certo momento, os estudantes, inclusive eu, fomos tomados de revolta: soubemos que Átila e Pitanga, seu colega de corporação armada, estavam na Faculdade de Direito como informantes, a serviço da ditadura (polícia militar era força auxiliar do exército), e que ajudavam na repressão aos movimentos de rua dos estudantes que combatiam o regime ditatorial. Os protestos ecoaram em todas as salas, corredores e cantina do prédio da Faculdade de Direito. Impossível contê-los.
Tinha sentido a nossa explosão estudantil: o regime militar prendia e torturava e, naquele mesmo ano, adotou o Decreto-lei 477 que previa a expulsão de estudantes, professores e funcionários de escolas e faculdades, por atividades conspiratórias ou rebeldia contra o governo imposto. A atividade de espionagem e “dedurismo” conduzia à prisão e à expulsão de estudantes (mesmo de pessoas com atividade discreta como a atual desembargadora Maria do Carmo Osório Pimentel Leal foi expulsa por conta de informações de “dedo duros”).
Os protestos continuavam. Havia a convicção de que aqueles policiais estavam freqüentando a faculdade para servirem à ditadura. O saudoso A. L. Machado Neto, professor marcante, sobre aqueles dois policiais afirmou que eles não eram discentes, mas dicentes (não de discere, aprender; mas de dicere, dizer).
Tantos anos após esses fatos, Emiliano José fala de Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho e da confidência desta de que sentira forte angústia e fora ao Quartel dos Dedenzeiros com a suspeita incontida de que seu filho, Renato Afonso, estava sendo torturado. Confirmou sua “premonição”, no local, e – ainda mais – que um dos torturadores era Átila Brandão, policial, hoje pastor.
Emiliano José combateu a ditadura. Sofreu prisão e os horrores dessa, a tortura. Foi condenado e cumpriu pena por combater a ditadura militar.
Hoje, estou num país que não puniu, nem quer punir, os torturadores, e em que um torturado é ironicamente processado por ex agente daquela ordem autoritária.
Não sei, Emiliano José, como o exercício de sua liberdade de narrar parte da saga de u’a mãe heróica será vista pelo juiz que apreciará o processo do oficial – pastor Átila Brandão; mas posso-lhe dizer que é ironia da história que velho agente da opressão processe a vítima dessa e que seu escrito tão necessário para a democracia ironicamente (ironia contraditoriamente necessária) perpetue o nome de pessoa que normalmente não teria a expressão que tomou. A justiça de seu artigo choca-se contra o vazio ético do improvável inconformismo do pastor.
No mais, paciente leitor, é ganhar tempo e ler A Premonição de Yayá. Até outra página!
Leia em 14:06 | 14 de Junho de 2013
Artigo A Tarde - A premonição de Yaiá
Emiliano José*
No Link

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Nas ruas, novamente.

Ruy Medeiros
Ontem, ainda vivendo a emoção de haver sido reintegrado no corpo discente (discente mesmo) do Curso de Direito da Universidade Federal da Bahia, fui às ruas ver a manifestação preponderantemente jovem que, como em outros lugares, ocorre em nossa cidade.
Mas explico minha reintegração (simbólica) no corpo de alunos da Faculdade de Direito da UFBA: em abril de 1969, após férias, quando preenchi minha confirmação de matrícula no ano letivo , o funcionário pediu que eu me dirigisse até o quadro de avisos e lesse portaria do Diretor da faculdade. Lí-a. Lá estava ato que, com base no Decreto – Lei 477, o diretor atendendo ordem dos ditadores expulsa-me e a outros colegas. Pronto. Expulso do curso, da residência universitária, do restaurante universitário e, depois, do emprego, proibido de matricular-me em outra universidade, deixei de estudar durante um bom (mau) tempo. Fui proibido de fazê-lo pela ditadura militar.
Não se surpreendam. Vivíamos tempos de opressão e terror do Estado.
Mas ontem, ainda sob emoção de lembranças, fui às ruas. Lá estavam jovens, com sua ironia, espírito crítico e combatividade. Expressões de descontentamento e de mal estar que o capitalismo cada vez mais provoca no mundo, a sensibilidade jovem busca afirmar-se nesse tempo em que “o velho” não quer ceder lugar ao novo, agarra-se a velhas fórmulas e, tenta via mídia, desfazer o pensamento contra a ordem vigente do capital.
Vi a juventude alegre, forte, questionadora. Mas não deixei de preocupar-me com o fato de grupo nitidamente eleitoreiro vinculado à defesa de interesses imediatos, querer faturar em seu favor as manifestações, tentar direcionar o que dizer e o que fazer.

Sei que os jovens saberão repudiar aproveitadores. Isso me conforta. O Movimento, que expressa reação, embora necessita aprofundar questões, certamente saberá como encaminhar a crítica ao oportunismo e ao imediatismo eleitoreiro, fazendo valer sua autonomia.  

quinta-feira, 4 de abril de 2013


A escola para ser pública não basta ser gratuita.

A escola pública está muito parecida com a escola particular, sob certos aspectos; mas cumpre distanciá-las. E o professor, sobre isso, tem muito a dizer e muito que fazer.
O diferencial entre uma e outra, costuma-se dizer, é a gratuidade da escola pública diante da escola privada. Seria bem assim?
A iniciativa particular pode gerar escola não paga, por conta da filantropia ou do assistencialismo; a iniciativa pública pode estimular (como tem feito) escolas da iniciativa privada, por meio de bolsas, subsídios, etc. Mas esse argumento – o pago e o não-pago – muito importante por seu caráter inclusivo, ou excludente, a depender do caso, não é tudo. Pelo menos não é bastante para caracterizar a escola pública.
A escola pública deve ser gratuita sim, mas deve preencher outros requisitos.
Em primeiro lugar, a escola pública deve ter qualidade, se não a tem, passa a justificar o não-público (a escola privada), tomando aspecto autodestrutivo. Há pessoas que, por conta da não qualidade da escola, transferem seus filhos para escolas particulares, com sacrifício, amesquinhando outros aspectos de sua existência por falta de recursos. A escola pública sem qualidade aponta para cenários de sua destruição: descrédito, esvaziamento, ou subsídios a escolas privadas, podendo chegar mesmo o Estado a contratar com a iniciativa privada a pretensão da atividade educacional. Em outras palavras: o controle, pelo capital, de um direito social – o direito social subsumido pelo capital, como uma mercadoria qualquer. Mas o ensino público pode ser mercadoria? Longe disso, ele é expressão de um direito conquistado, como os direitos o são. Se nós, professores, não cuidamos da qualidade do ensino que ministramos, não temos postura de defesa da escola pública. Não se trata do discurso ingênuo da vocação ou do sacerdócio. Em verdade, qualidade de ensino depende de nós, mas diz respeito igualmente a recursos e ambiente adequados. Infelizmente a degradação do ensino chegou a tal ponto que, para termos qualidade somos obrigados a lutar por recursos e melhores condições ambientais de trabalho. Muitas vezes ficamos no dilema: ensinar sem recurso e ambiente, ou recusar a ensinar enquanto estes não chegam? Não podemos ter dúvida de que as pressões do capital o qual elege outras prioridades é componente dessa falta de qualidade e de nosso dilema.
A escola, para ser pública, precisa ser democrática. Não se pode imaginar uma escola pública não democrática. O paradoxo a que a afirmação chagaria diante da escola gratuita mantida por Estados ditatoriais, não pode ser acenado para recusar a assertiva. Em verdade, a ditaduras podem ter suas escolas gratuitas, mas essas não são escolas públicas, pois aí as diversas vozes não se exprimem e os ditadores moldam currículos, objetivos e métodos, tirando do ensino o seu conteúdo principal: a liberdade. Será que alguns estão dispostos a ter uma escola gratuita, bem equipada, mas sem liberdade? Mas de que liberdade se trata? – Trata-se da liberdade que busca sempre ampliar-se. Não é naturalmente a liberdade para apenas autocensurar-se, pois a autocensura significa o dobrar-se diante da potencial censura do exterior.
A educação pública deve romper (sob pena de não ser pública) com duas amarras (dentre outras): a alienação e o medo das ruas. Toda educação não crítica, alienante, aponta para a privatização, pelo menos dos resultados: homens e mulheres vistos apenas como força de trabalho (a burguesia brasileira é namorada da educação sulcoreana exatamente por isso!). Todos nós somos mais que força de trabalho, somos dignidade e futuro. E, desde já, não podemos, com a educação, limitar nosso futuro e nossa dignidade. O capital já o faz e não podemos auxiliá-lo nesse mister. Devemos recusá-lo, mesmo sabendo que muitos estarão treinados ao trabalho, mas que também necessitarão romper as amarras do capital, e precisarão fazê-lo.
A educação pública não tem medo das ruas. Dizer isso é bravata? Afinal vivemos num mundo das cercas elétricas, do monitoramento, dos vigilantes, enfim do mundo da violência. E como não ter medo das ruas?
É preciso pensar: o atual modelo com que o Estado trata a violência é o modelo de sua territorialização e do cárcere. A segurança, ao invés de ser pensada e executada como direito, é mercantilizada: armas, monitoramento, guardas privados, cercas elétricas, grades. Além desse cárcere, podemos observar sua territorialização: as UPP e modelos semelhantes. Trata-se de ocupar espaço e nesse, trocar a violência do traficante e outros pela violência do Estado. E a escola tem sido expressão dessa territorialização da segurança: espaços reservados, tornados cárcere, onde a violência é “sentida” como medo, e não “discutida” como fato social. À medida que um território é controlado, a violência transfere-se para outro. Como se trata de controlar espaço, o ideal desse tipo de segurança é o estado policial, onipresente.
Será que entendemos porque a política de territorialização da segurança e de seu não tratamento como direito explica por que as escolas estão se tornando cárceres independentemente de nossa vontade? – E nós, prisioneiros? Por que a alternativa para a população pobre deve ser o cárcere ou o tráfico?
Vivemos num momento difícil de fazer a escola encontrar as ruas, com viver com as ruas, ao invés de ser prisão nossa e dos estudantes. No entanto, não podemos temer as ruas, que são espaços públicos (não exatamente espaços estatais). Para isso é necessário ampliar a autonomia de cada estabelecimento escolar e o professor tornar-se agente social de educação: buscar as ruas, seus sinais. Não render-se à privatização nem à estatização policialesca  do espaço público. Partir para o diálogo e a luta.
Bem difícil está a nossa vida, não é? – Terrível. Temos que voltar às questões que discutíamos em tempos tão difíceis como os tempos atuais: Vale a pena pensar, sonhar, lutar? Se quisermos ser escravos, não vale a pena.
Vale a pena também lembrar: A educação é feita hoje, mas nossa mão e nosso caminhar buscam o futuro.

segunda-feira, 11 de março de 2013


CONDIÇÃO DEGRADANTE
                                  (Ruy Medeiros)

Condições degradantes de trabalho – isso foi o que encontraram o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho e a Delegacia Regional do Trabalho.
Trabalhadores alojados junto a sacos de ração para gado com a presença de ratos; trabalhadores residindo em cubículos sem ventilação, alguns dos quais sem instalações sanitárias; sanitários coletivos imundos; cubículo com menos de 6,0m (seis metros) abrigando pai, mãe e filho; direitos trabalhistas negados; condições totalmente insalubres para os que trabalham. Não é pouca coisa essa infâmia. Nem é cena do Haiti após governos espoliadores e tragédia da natureza.
Isso foi encontrado em dependência de entidade que atende pelo nome de Clube da Derruba, que ocupa indevidamente área pertencente à União.
Em contraposição àquela situação relatada, há sala maior, bem ventilada e limpa para guarda de selas, bridas e outros apetrechos de montaria, "contêiner  refrigerado" para transportar cavalos (não tenho nada contra bom tratamento a animais; eles devem ser bem tratados!).
Mas, revolta que o tratamento que se destina a animais pertencentes a pessoas que se servem do Clube da Derruba seja diametralmente oposto ao tratamento que ocorre em relação aos trabalhadores.
Repete-se: em área pertencente ao poder público ocupada pelo Clube da Derruba, e sob supervisão desse, vigoravam condições degradantes de trabalho, até recentemente quando houve interdição de atividades no local. Acrescento à lista dessas, o fato de água para as necessidades humanas serem retiradas de tanque aberto, ao ar livre, e que um local onde dormia um trabalhador (sem carteira assinada) abre sua porta para um cocho de ração animal.
Não consigo entender como aquele clube recebe manifestação de apreço por parte de setores da população, sob alegação de que tem contribuição histórica à cultura conquistense. Que contribuição é essa? Serve a Vitória da Conquista ou a pequeno grupo que ali realiza atividades em proveito próprio? Que contribuição oferece ao povo de Vitória da Conquista?
O município de Vitória da Conquista deve alegrar-se com a interdição de atividades naquele local, especialmente com a extinção de condições infamantes em que viviam os trabalhadores naquela sede do Clube da Derruba e cobrar das autoridades o alojamento condigno daqueles servidores.
A área onde o clube exercia sua atividade (estou falando apenas dessa) deve ter sua tutela municipal mantida (o Serviço de Patrimônio da União transferiu a posse para o Município há algum tempo) e, depois, reivindicar sua doação ao patrimônio municipal, utilizando-a a serviço da comunidade, não de grupo responsável por tratar de forma ilegal trabalhadores.
Ps.: Esta manifestação é pessoal. Não é manifestação do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil do qual faço parte.

terça-feira, 18 de setembro de 2012


Luciano Popó 
Ruy Medeiros 


Luciano Popó: Popó de poeta, que era. Em verdade, Luciano Dias Brito, filho de Alziro Prates Brito e Violeta Dias Brito. 
Luciano se foi aniquilado em sua angustia , em 14.09.2012. Que a terra lhe seja leve. 
Foi jovem que prometia brilhar. No Colégio Central da Bahia (Salvador) concluiu o ensino médio. Prestou vestibular e estudou, até o quarto semestre, Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia. Fez cursos livres (extensão) de xilogravura no Museu de Arte Moderna da Bahia, e desenho, na Escola de Belas Artes da UFBA. 
Um tempo, andou ausente. Depois retornou a Vitória da Conquista e foi para Belo Campo, cidade que ele imaginava que seria poupada pela grande hecatombe que destruiria os seres vivos da Terra.  
Fazia boa poesia. Não sei onde, nem com quem se encontram seus versos. Talvez com Sandra? 
Conservei, e conservarei, conforme seu pedido, um álbum encadernado em espiral, que ela me ofertou, contendo seus cartuns, charges, ilustrações, quadrinhos e três textos, publicados no Diário do Sudoeste, entre os anos de 1995 e 2000, e no Piquete (boletim do Sindicato dos Bancários). Deixou alguns quadros, em tela, adquiridos por poucos amigos. Após este texto, pode-se ver a qualidade de quadrinista de Luciano. 
Jovem, Luciano Brito participou do Ceusc – Centro dos Estudantes Universitários e Secundaristas de Conquista e ilustrou edições de seu jornal – Cálice, na década de 1970. Integrou no movimento Emergente (fins de 1979 – 1982), com Jorge Luiz Melquisedeque, Antonio Calmon,  Jean Claúdio, Joan Barreto, Zélio Costa e Paulo Cesar Melo. Desenhou imagens desconcertantes e poesia em muro da cidade. No “Solo de Caneta” há alguns versos seus (espero que não sejam os únicos sobreviventes), de 1981. 
Inquieto, Luciano Brito nos últimos anos se atormentava entre fumaça e pó de ruas sem saída. 
Aperreios para encontrar dinheiro para sobreviver eram constantes. Tentou retornar à pintura e realizou alguns quadros. Mas era o angustiado de sempre. Aquele mesmo angustiado que há trinta e um anos disse: 



“No forno  
do peito 
dos homens 
existe um fio 
que vive 
de assar as lágrimas”. 

Em seu  “movimentos da sede”: 

1 

Prender a água 
dos esgotos 
num frasco 
sobre a penteadeira 

2 

Perseguir 
a última gotadagua 
não como quem tem sede 
com o ódio 
de um afogado 
que há três dias 
dorme 
e janta algas  
no leito do lago 

Penultimo 
vou afogarme 
na prateleira  
do primeiro 
bar”. 

Tiras de Luciano Brito:, nos 500 anos do Brasil. 







Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica

Memória do Direito | Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica 17 de setembro de 2026, 8:14 / Anderson ...