sexta-feira, 21 de junho de 2013

Emiliano José e a Ironia
Ruy Medeiros
Há momentos em que os atropelos na luta pela existência nos fazem atropelar prioridades. É muito grave abandonarmos a prioridade da fala no momento devido. Essa falta nos fere.
Bertold Brecht em seu poema “Aos que vão nascer” (bela tradução de Geir Campos) fala da dificuldade de ser amigo em tempos de opressão.
(...)
“E entretanto sabíamos:
Também o ódio à baixeza endurece as feições,
 também a raiva contra a injustiça
 torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
 que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmo podemos ser.
 Mas vós, quando chegar a ocasião
 de ser o homem um parceiro para o homem,
 pensai em nós
Com simpatia”.
Essa introdução vem por conta de não ter eu expressado antes, em letra de forma, o sentimento que me envolve em relação ao choque entre Emiliano José e Átila Brandão, pastor.
Emiliano José, como vem fazendo há anos, publicou mais um artigo sobre vítimas algozes e fatos da ditadura militar. Dessa vez o fez envolvendo intuição de Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho (Yayá) de que seu filho, Renato Afonso, estaria sendo torturado no quartel da polícia militar, sito no bairro de Dedenzeiros, em Salvador. Mencionado na matéria, Átila Brandão, julgando-se atingido em sua honra, resolveu processar Emiliano José.
Quando o hoje pastor Átila Brandão atuava como policial, eu era estudante do Curso de Direito da Universidade Federal da Bahia. Em certo momento, os estudantes, inclusive eu, fomos tomados de revolta: soubemos que Átila e Pitanga, seu colega de corporação armada, estavam na Faculdade de Direito como informantes, a serviço da ditadura (polícia militar era força auxiliar do exército), e que ajudavam na repressão aos movimentos de rua dos estudantes que combatiam o regime ditatorial. Os protestos ecoaram em todas as salas, corredores e cantina do prédio da Faculdade de Direito. Impossível contê-los.
Tinha sentido a nossa explosão estudantil: o regime militar prendia e torturava e, naquele mesmo ano, adotou o Decreto-lei 477 que previa a expulsão de estudantes, professores e funcionários de escolas e faculdades, por atividades conspiratórias ou rebeldia contra o governo imposto. A atividade de espionagem e “dedurismo” conduzia à prisão e à expulsão de estudantes (mesmo de pessoas com atividade discreta como a atual desembargadora Maria do Carmo Osório Pimentel Leal foi expulsa por conta de informações de “dedo duros”).
Os protestos continuavam. Havia a convicção de que aqueles policiais estavam freqüentando a faculdade para servirem à ditadura. O saudoso A. L. Machado Neto, professor marcante, sobre aqueles dois policiais afirmou que eles não eram discentes, mas dicentes (não de discere, aprender; mas de dicere, dizer).
Tantos anos após esses fatos, Emiliano José fala de Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho e da confidência desta de que sentira forte angústia e fora ao Quartel dos Dedenzeiros com a suspeita incontida de que seu filho, Renato Afonso, estava sendo torturado. Confirmou sua “premonição”, no local, e – ainda mais – que um dos torturadores era Átila Brandão, policial, hoje pastor.
Emiliano José combateu a ditadura. Sofreu prisão e os horrores dessa, a tortura. Foi condenado e cumpriu pena por combater a ditadura militar.
Hoje, estou num país que não puniu, nem quer punir, os torturadores, e em que um torturado é ironicamente processado por ex agente daquela ordem autoritária.
Não sei, Emiliano José, como o exercício de sua liberdade de narrar parte da saga de u’a mãe heróica será vista pelo juiz que apreciará o processo do oficial – pastor Átila Brandão; mas posso-lhe dizer que é ironia da história que velho agente da opressão processe a vítima dessa e que seu escrito tão necessário para a democracia ironicamente (ironia contraditoriamente necessária) perpetue o nome de pessoa que normalmente não teria a expressão que tomou. A justiça de seu artigo choca-se contra o vazio ético do improvável inconformismo do pastor.
No mais, paciente leitor, é ganhar tempo e ler A Premonição de Yayá. Até outra página!
Leia em 14:06 | 14 de Junho de 2013
Artigo A Tarde - A premonição de Yaiá
Emiliano José*
No Link

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Nas ruas, novamente.

Ruy Medeiros
Ontem, ainda vivendo a emoção de haver sido reintegrado no corpo discente (discente mesmo) do Curso de Direito da Universidade Federal da Bahia, fui às ruas ver a manifestação preponderantemente jovem que, como em outros lugares, ocorre em nossa cidade.
Mas explico minha reintegração (simbólica) no corpo de alunos da Faculdade de Direito da UFBA: em abril de 1969, após férias, quando preenchi minha confirmação de matrícula no ano letivo , o funcionário pediu que eu me dirigisse até o quadro de avisos e lesse portaria do Diretor da faculdade. Lí-a. Lá estava ato que, com base no Decreto – Lei 477, o diretor atendendo ordem dos ditadores expulsa-me e a outros colegas. Pronto. Expulso do curso, da residência universitária, do restaurante universitário e, depois, do emprego, proibido de matricular-me em outra universidade, deixei de estudar durante um bom (mau) tempo. Fui proibido de fazê-lo pela ditadura militar.
Não se surpreendam. Vivíamos tempos de opressão e terror do Estado.
Mas ontem, ainda sob emoção de lembranças, fui às ruas. Lá estavam jovens, com sua ironia, espírito crítico e combatividade. Expressões de descontentamento e de mal estar que o capitalismo cada vez mais provoca no mundo, a sensibilidade jovem busca afirmar-se nesse tempo em que “o velho” não quer ceder lugar ao novo, agarra-se a velhas fórmulas e, tenta via mídia, desfazer o pensamento contra a ordem vigente do capital.
Vi a juventude alegre, forte, questionadora. Mas não deixei de preocupar-me com o fato de grupo nitidamente eleitoreiro vinculado à defesa de interesses imediatos, querer faturar em seu favor as manifestações, tentar direcionar o que dizer e o que fazer.

Sei que os jovens saberão repudiar aproveitadores. Isso me conforta. O Movimento, que expressa reação, embora necessita aprofundar questões, certamente saberá como encaminhar a crítica ao oportunismo e ao imediatismo eleitoreiro, fazendo valer sua autonomia.  

quinta-feira, 4 de abril de 2013


A escola para ser pública não basta ser gratuita.

A escola pública está muito parecida com a escola particular, sob certos aspectos; mas cumpre distanciá-las. E o professor, sobre isso, tem muito a dizer e muito que fazer.
O diferencial entre uma e outra, costuma-se dizer, é a gratuidade da escola pública diante da escola privada. Seria bem assim?
A iniciativa particular pode gerar escola não paga, por conta da filantropia ou do assistencialismo; a iniciativa pública pode estimular (como tem feito) escolas da iniciativa privada, por meio de bolsas, subsídios, etc. Mas esse argumento – o pago e o não-pago – muito importante por seu caráter inclusivo, ou excludente, a depender do caso, não é tudo. Pelo menos não é bastante para caracterizar a escola pública.
A escola pública deve ser gratuita sim, mas deve preencher outros requisitos.
Em primeiro lugar, a escola pública deve ter qualidade, se não a tem, passa a justificar o não-público (a escola privada), tomando aspecto autodestrutivo. Há pessoas que, por conta da não qualidade da escola, transferem seus filhos para escolas particulares, com sacrifício, amesquinhando outros aspectos de sua existência por falta de recursos. A escola pública sem qualidade aponta para cenários de sua destruição: descrédito, esvaziamento, ou subsídios a escolas privadas, podendo chegar mesmo o Estado a contratar com a iniciativa privada a pretensão da atividade educacional. Em outras palavras: o controle, pelo capital, de um direito social – o direito social subsumido pelo capital, como uma mercadoria qualquer. Mas o ensino público pode ser mercadoria? Longe disso, ele é expressão de um direito conquistado, como os direitos o são. Se nós, professores, não cuidamos da qualidade do ensino que ministramos, não temos postura de defesa da escola pública. Não se trata do discurso ingênuo da vocação ou do sacerdócio. Em verdade, qualidade de ensino depende de nós, mas diz respeito igualmente a recursos e ambiente adequados. Infelizmente a degradação do ensino chegou a tal ponto que, para termos qualidade somos obrigados a lutar por recursos e melhores condições ambientais de trabalho. Muitas vezes ficamos no dilema: ensinar sem recurso e ambiente, ou recusar a ensinar enquanto estes não chegam? Não podemos ter dúvida de que as pressões do capital o qual elege outras prioridades é componente dessa falta de qualidade e de nosso dilema.
A escola, para ser pública, precisa ser democrática. Não se pode imaginar uma escola pública não democrática. O paradoxo a que a afirmação chagaria diante da escola gratuita mantida por Estados ditatoriais, não pode ser acenado para recusar a assertiva. Em verdade, a ditaduras podem ter suas escolas gratuitas, mas essas não são escolas públicas, pois aí as diversas vozes não se exprimem e os ditadores moldam currículos, objetivos e métodos, tirando do ensino o seu conteúdo principal: a liberdade. Será que alguns estão dispostos a ter uma escola gratuita, bem equipada, mas sem liberdade? Mas de que liberdade se trata? – Trata-se da liberdade que busca sempre ampliar-se. Não é naturalmente a liberdade para apenas autocensurar-se, pois a autocensura significa o dobrar-se diante da potencial censura do exterior.
A educação pública deve romper (sob pena de não ser pública) com duas amarras (dentre outras): a alienação e o medo das ruas. Toda educação não crítica, alienante, aponta para a privatização, pelo menos dos resultados: homens e mulheres vistos apenas como força de trabalho (a burguesia brasileira é namorada da educação sulcoreana exatamente por isso!). Todos nós somos mais que força de trabalho, somos dignidade e futuro. E, desde já, não podemos, com a educação, limitar nosso futuro e nossa dignidade. O capital já o faz e não podemos auxiliá-lo nesse mister. Devemos recusá-lo, mesmo sabendo que muitos estarão treinados ao trabalho, mas que também necessitarão romper as amarras do capital, e precisarão fazê-lo.
A educação pública não tem medo das ruas. Dizer isso é bravata? Afinal vivemos num mundo das cercas elétricas, do monitoramento, dos vigilantes, enfim do mundo da violência. E como não ter medo das ruas?
É preciso pensar: o atual modelo com que o Estado trata a violência é o modelo de sua territorialização e do cárcere. A segurança, ao invés de ser pensada e executada como direito, é mercantilizada: armas, monitoramento, guardas privados, cercas elétricas, grades. Além desse cárcere, podemos observar sua territorialização: as UPP e modelos semelhantes. Trata-se de ocupar espaço e nesse, trocar a violência do traficante e outros pela violência do Estado. E a escola tem sido expressão dessa territorialização da segurança: espaços reservados, tornados cárcere, onde a violência é “sentida” como medo, e não “discutida” como fato social. À medida que um território é controlado, a violência transfere-se para outro. Como se trata de controlar espaço, o ideal desse tipo de segurança é o estado policial, onipresente.
Será que entendemos porque a política de territorialização da segurança e de seu não tratamento como direito explica por que as escolas estão se tornando cárceres independentemente de nossa vontade? – E nós, prisioneiros? Por que a alternativa para a população pobre deve ser o cárcere ou o tráfico?
Vivemos num momento difícil de fazer a escola encontrar as ruas, com viver com as ruas, ao invés de ser prisão nossa e dos estudantes. No entanto, não podemos temer as ruas, que são espaços públicos (não exatamente espaços estatais). Para isso é necessário ampliar a autonomia de cada estabelecimento escolar e o professor tornar-se agente social de educação: buscar as ruas, seus sinais. Não render-se à privatização nem à estatização policialesca  do espaço público. Partir para o diálogo e a luta.
Bem difícil está a nossa vida, não é? – Terrível. Temos que voltar às questões que discutíamos em tempos tão difíceis como os tempos atuais: Vale a pena pensar, sonhar, lutar? Se quisermos ser escravos, não vale a pena.
Vale a pena também lembrar: A educação é feita hoje, mas nossa mão e nosso caminhar buscam o futuro.

segunda-feira, 11 de março de 2013


CONDIÇÃO DEGRADANTE
                                  (Ruy Medeiros)

Condições degradantes de trabalho – isso foi o que encontraram o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho e a Delegacia Regional do Trabalho.
Trabalhadores alojados junto a sacos de ração para gado com a presença de ratos; trabalhadores residindo em cubículos sem ventilação, alguns dos quais sem instalações sanitárias; sanitários coletivos imundos; cubículo com menos de 6,0m (seis metros) abrigando pai, mãe e filho; direitos trabalhistas negados; condições totalmente insalubres para os que trabalham. Não é pouca coisa essa infâmia. Nem é cena do Haiti após governos espoliadores e tragédia da natureza.
Isso foi encontrado em dependência de entidade que atende pelo nome de Clube da Derruba, que ocupa indevidamente área pertencente à União.
Em contraposição àquela situação relatada, há sala maior, bem ventilada e limpa para guarda de selas, bridas e outros apetrechos de montaria, "contêiner  refrigerado" para transportar cavalos (não tenho nada contra bom tratamento a animais; eles devem ser bem tratados!).
Mas, revolta que o tratamento que se destina a animais pertencentes a pessoas que se servem do Clube da Derruba seja diametralmente oposto ao tratamento que ocorre em relação aos trabalhadores.
Repete-se: em área pertencente ao poder público ocupada pelo Clube da Derruba, e sob supervisão desse, vigoravam condições degradantes de trabalho, até recentemente quando houve interdição de atividades no local. Acrescento à lista dessas, o fato de água para as necessidades humanas serem retiradas de tanque aberto, ao ar livre, e que um local onde dormia um trabalhador (sem carteira assinada) abre sua porta para um cocho de ração animal.
Não consigo entender como aquele clube recebe manifestação de apreço por parte de setores da população, sob alegação de que tem contribuição histórica à cultura conquistense. Que contribuição é essa? Serve a Vitória da Conquista ou a pequeno grupo que ali realiza atividades em proveito próprio? Que contribuição oferece ao povo de Vitória da Conquista?
O município de Vitória da Conquista deve alegrar-se com a interdição de atividades naquele local, especialmente com a extinção de condições infamantes em que viviam os trabalhadores naquela sede do Clube da Derruba e cobrar das autoridades o alojamento condigno daqueles servidores.
A área onde o clube exercia sua atividade (estou falando apenas dessa) deve ter sua tutela municipal mantida (o Serviço de Patrimônio da União transferiu a posse para o Município há algum tempo) e, depois, reivindicar sua doação ao patrimônio municipal, utilizando-a a serviço da comunidade, não de grupo responsável por tratar de forma ilegal trabalhadores.
Ps.: Esta manifestação é pessoal. Não é manifestação do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil do qual faço parte.

terça-feira, 18 de setembro de 2012


Luciano Popó 
Ruy Medeiros 


Luciano Popó: Popó de poeta, que era. Em verdade, Luciano Dias Brito, filho de Alziro Prates Brito e Violeta Dias Brito. 
Luciano se foi aniquilado em sua angustia , em 14.09.2012. Que a terra lhe seja leve. 
Foi jovem que prometia brilhar. No Colégio Central da Bahia (Salvador) concluiu o ensino médio. Prestou vestibular e estudou, até o quarto semestre, Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia. Fez cursos livres (extensão) de xilogravura no Museu de Arte Moderna da Bahia, e desenho, na Escola de Belas Artes da UFBA. 
Um tempo, andou ausente. Depois retornou a Vitória da Conquista e foi para Belo Campo, cidade que ele imaginava que seria poupada pela grande hecatombe que destruiria os seres vivos da Terra.  
Fazia boa poesia. Não sei onde, nem com quem se encontram seus versos. Talvez com Sandra? 
Conservei, e conservarei, conforme seu pedido, um álbum encadernado em espiral, que ela me ofertou, contendo seus cartuns, charges, ilustrações, quadrinhos e três textos, publicados no Diário do Sudoeste, entre os anos de 1995 e 2000, e no Piquete (boletim do Sindicato dos Bancários). Deixou alguns quadros, em tela, adquiridos por poucos amigos. Após este texto, pode-se ver a qualidade de quadrinista de Luciano. 
Jovem, Luciano Brito participou do Ceusc – Centro dos Estudantes Universitários e Secundaristas de Conquista e ilustrou edições de seu jornal – Cálice, na década de 1970. Integrou no movimento Emergente (fins de 1979 – 1982), com Jorge Luiz Melquisedeque, Antonio Calmon,  Jean Claúdio, Joan Barreto, Zélio Costa e Paulo Cesar Melo. Desenhou imagens desconcertantes e poesia em muro da cidade. No “Solo de Caneta” há alguns versos seus (espero que não sejam os únicos sobreviventes), de 1981. 
Inquieto, Luciano Brito nos últimos anos se atormentava entre fumaça e pó de ruas sem saída. 
Aperreios para encontrar dinheiro para sobreviver eram constantes. Tentou retornar à pintura e realizou alguns quadros. Mas era o angustiado de sempre. Aquele mesmo angustiado que há trinta e um anos disse: 



“No forno  
do peito 
dos homens 
existe um fio 
que vive 
de assar as lágrimas”. 

Em seu  “movimentos da sede”: 

1 

Prender a água 
dos esgotos 
num frasco 
sobre a penteadeira 

2 

Perseguir 
a última gotadagua 
não como quem tem sede 
com o ódio 
de um afogado 
que há três dias 
dorme 
e janta algas  
no leito do lago 

Penultimo 
vou afogarme 
na prateleira  
do primeiro 
bar”. 

Tiras de Luciano Brito:, nos 500 anos do Brasil. 







terça-feira, 31 de julho de 2012


 Manifesto pela dignidade da Educação Pública


Quem cala consente, diz-se. Quem cala tem medo, também se diz. No entanto é tempo de falar alto e em conjunto com outros. Não é tempo de consentir nem de amedrontar-se.
Trata-se de falar em favor da educação pública e do temor de que a destruam.
A educação pública vem perdendo espaço, deixando de ser efetivamente um direito social, perdendo qualidade e distanciando-se da vida e dos interesses de seus destinatários. Não se sabe mais qual o referencial da educação pública e a que esta se destina.
Sucessivos governos, apesar das promessas constitucionais e de planos de educação, desconhecem que devem ouvir a comunidade, observar a vida concreta dos estudantes e futuros estudantes e não cortar os sonhos.
Após longo curso de experiências ineficazes e sem projeto sólido e extensivo de educação realmente democrática e de qualidade, governos apontam crescimento de investimentos em educação, incluindo aí, dinheiro direcionado para o comércio educacional. Mas não explicam porque ainda há tantas pessoas totalmente analfabetas ou porque cresce o número de analfabetos funcionais, nem porque a educação direito social, está perdendo espaço para a educação comércio.
Não há política a médio e a longo prazo para os agentes da educação: professores, técnicos, diretores, orientadores, etc. Tudo se improvisa e se improvisa mal.
A cada depreciação dos salários surge inevitavelmente o confronto – greves, protestos, ocupações. E estranhamente isso é tratado com ações direcionadas contra os professores e não a favor da educação.
A educação pública é direito que prepara o futuro; a educação pública e seus agentes deve ser tratada com dignidade; a educação pública não merece esse triste espetáculo de corte de salários dos professores e de desqualificação.
A educação pública merece ser respeitada e defendida.
Por isso tudo, as pessoas que subscrevem este manifesto convidam a comunidade para falar, não amedrontar-se, não acovarda-se e sobretudo para a atividade de pensar sobre aquilo que está ocorrendo e para defender a educação pública.
Reuniões serão realizadas nos bairros e este manifesto está aberto a adesões. Pode ser, assim, amplamente divulgado e assinado por todos que o apóiem.
V. Conquista, Bahia, 01 de agosto de 2012
Ruy H. A. Medeiros



terça-feira, 17 de julho de 2012


Sem aula e sem salário
Ruy Medeiros.
Gosto de Bertold Brech, mesmo quando seu nome vem escrito como Bertolt. Quando se trata de violência sempre me vem à mente versos que já repeti e que continuarei repetindo:
Do rio que tudo arrasta
se diz violento
Mas não se dizem violentas
as margens que o comprimem.
Paulo Cesar de Souza traduziu os versos de forma diferente:
A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito de rio que o contém
Ninguém chama de violento.
A lembrança de Brecht vem por conta da atual greve dos professores da rede pública estadual. Por quê?
Leio, vejo e ouço: Governo e seus preprepostos manifestam seu repúdio, seu desconforto e decepção com o fato de milhares e milhares de jovens estarem sem aula, e justificam o corte de salários dos nossos professores (nossos, sim, leitor). Tudo isso me violenta, e creio que agride a inteligência de muitos.
Se o governo estivesse mesmo preocupado com os jovens estudantes não teria deixado as coisas atingirem esse nível. A verdade é que o Estado não possui, nem implementa, política de educação que reverta o atual quadro. Ao invés disso, escolas são fechadas (vide, dentre outros os casos das Escolas Dirlene Mendonça e Maria Viana), o ensino público perde qualidade, pais se sacrificam e colocam seus filhos em escolas de rede privada. Também o Estado não tem política que pense no professor seriamente. Este é encarado como qualquer um (daí vem os contratos REDA), e não como responsável por instituição que pretende vincular pessoas e sociedades ao futuro (a aprendizagem sempre será utilizada no futuro) e que, por isso, é necessário à própria existência de todos nós. Não é algo que seja descartável ou improvisado.
Mas há uma onda perversa (mesmo!) que se revela nos momentos de greve: a tentativa de jogar professores contra a sociedade, denunciando que aqueles deixam crianças sem aulas, sem merenda, etc. Isso é revelador: uma sociedade contra o professor ou que o desprestigia não é sociedade que queira educação e o Estado que usa tal expediente compromete a educação. O leitor por certo não gostaria de ser educado por pessoas repudiadas pela sociedade. E é isso que o Estado quer dizer: não acredite neles (portanto não acredite na rede pública de ensino), assim será melhor para encher a rede privada, para fechar as escolas, para violentar o futuro ( o futuro é sim violentado, quando se violenta potenciais).
Esse discurso , que compromete a educação é violência contra todos nós, pois nos condena a ver a sociedade presa aos interesses privativistas em matéria de ensino e assistir o caráter desse ser dobrado em direção àquele mesmo ensino já denominado de maceteiro (que substitui com galas a “decorebagem” ). Mas compromete o ensino à medida que desqualifica os principais agentes desse. Isso pode surtir efeito político imediato. O Estado diz que os professores são culpados, desqualifica-os, mas com isso comete crime contra a educação. Está visto.
Em verdade, os salários achataram-se. Escolas foram fechadas ou sucateadas. Salas foram reunidas. E, nesse momento, em que laços de solidariedade e mudanças no seio das famílias dificultam o trabalho do professor, que precisa ter condições para bem desempenhar seu ofício, precisa estudar para entender esse seu novo alunado, formular estratégia, ver o que pode dar certo para dotar os educandos de instrumentos de autonomia para continuar estudando.
Mas aí está a greve. Apesar do desejo do Estado de jogar a sociedade contra os professores, isso não ocorreu, a sociedade não protestou, por dois motivos principais, eu penso (sei que há outros): a) os pobres a quem a desastrada educação pública passou a ser destinatária (os menos pobres já estão na escola particular) não se sensibilizaram porque percebem que lutar contra miséria dos outros é combater contra sua própria miséria; b) já não vê grande efeito no tipo de educação oferecido pelo Estado e imposta aos professores como seu modo de fazer(como, aliás, parece ser desejo de governantes).
Por outro lado, a greve não cresce por seu estilo sindical. Os professores não entenderam ainda que sua luta exige um novo tipo de greve: referenciada na sociedade, com a sociedade, formulando projeto, que também seja desta, - de educação para todos, com mais destinatários e sem fuga de estudantes, uma educação que para os pobres não aponte apenas a misera contribuição do bolsa família ou do benefício assistencial. Urge construir comitês, em cada lugar, de defesa e transformação da educação pública. O horizonte deve ser mais largo. Afinal, como dizia Cazuza – “ meus inimigos estão no poder. Ideologia, preciso de uma prá viver”.


E a Coluna Prestes não veio

  Ruy Medeiros Os meses de março, abril e maio marcaram a forte presença da Coluna Prestes na Bahia. Era o ano de 1926, portanto há cem anos...