segunda-feira, 22 de abril de 2019

A caça e a regra






Para Mário, que sabe que a caça possui regras.

Ruy Medeiros




Eles apareceram e apareceram muito, como queriam aparecer. De integrantes de uma instituição do Estado, eles queriam muito mais: normatizar condutas sob pretexto de melhor aplicar as normas de caçar e punir.
Eles – não todos os membros da instituição – foram à caça. Imaginaram-se salvadores. De garantidores do direito estimavam-se ungidos do poder de vingar atribuído aos heróis. Assim ontem e hoje.
E, então, confundiram e confundem moral e direito e por isso igualmente confundiram e confundem sanção jurídica com sanção moral. A punição moral, que é difusa (a sociedade vale-se do opróbio, chacota, reprovação e recriminações difundidas em seus seguimentos), precedia sistemática e amplamente a sanção jurídica, que é organizada e concentrada no Estado julgador e segue regras não espontâneas: não é chacota, nem riso, nem xingamentos, pois é pena decorrente de um devido processo legal.
E a sanção moral era (é) buscada amplamente como o capitalista busca a reprodução do capital (a comparação não é gratuita). À noite, aqueles membros da instituição alimentavam imprensa, rádios, blogs, o diabo-a-quatro. Pela manhã esses regurgitavam o alimento noticioso e aqueloutros se deliciavam com o regurgitamento. Ficavam cientes que, com o estardalhaço dos meios de comunicação, ninguém poderia opor-lhes.
A pressão moral realizava-se amplamente sobre investigados. Quem iria desobedecer a onda moralista e com isso a ira social? Com a pressão que se estendia aos outros poderes do Estado, eles conseguiam despojar o direito de qualquer conteúdo ético, por que não se pode, nessa frente de batalha, falar-se em devido processo legal, com seu valor ético. A defesa segue já despojada de algumas armas, enfraquecida.
A falta de um júri espetaculoso (no qual regras de procedimento teriam de ser obedecidas) buscavam o espetáculo vulgar. Imprensa convocada, instrumentos na mão, lugar de evento contratado e pago, realizava-se a função e atores do Estado a várias vozes liam o texto: não era denúncia ou libelo acusatório. Estes são dirigidos ao Estado julgador. A peça lida era dirigida à plateia presente e alcançava toda sociedade por intermédio de rádios, televisões, jornais. É como dissessem: “nós os acusamos à sociedade que os julgará”. E isso se repetia: é que o comportamento seguia a lógica da sanção (punição) moral: ser difusa. Não seguia concentração e processo legalmente controlado, regido pelo contraditório e defesa plenária. Só uma parte fala. Antes de dirigir-se ao juiz a denúncia, esta era dirigida à sociedade.
Não se tratava de exagerado apreço pela informação. O objetivo buscado era outro. Não se tratava de cultivar o direito de informar e obter informação nem de liberdade de imprensa. Diferentemente disso estabelecia-se o contínuo procedimento de inversão e prévia condenação de investigados pela midia e pela sociedade (alguns dos caçados foram absolvidos pelo Estado julgador e isso demonstra que o julgamento difuso, moral, sequer segue a alegada moralidade).
Logo a inversão acentuou e alimentou práticas de acordo com o “clamor popular” (opinião publicada substitui opinião pública na manipulação social). Não só ocorreram “vazamentos” ilegais, pois também aconteceram francas interceptações telefônicas e sua divulgação fora da lei, pedido e apoio a conduções coercitivas ilegítimas, prisões preventivas abusivas.
Um grupo, dentro da instituição, conhecedora do uso político da moralidade, não teve dúvida e fez o “link”: moral-política. Com isso responderam ao sofrimento de frustrações e desencantos potencializados pela crise, insatisfação e a situação político-econômica, com o ideário salvacionista de bons costumes, pátria e família. Muitos engajaram-se na campanha de um capitão reformado.
Contrariando o cânone da Constituição que a moldou, dentro da Instituição o grupo que se atribuiu o papel de vingador social, vem patrocinando o direito penal do inimigo (no Brasil, isso aproxima o investigado da situação de inimigo interno da doutrina da segurança nacional). Era e é previsível a que ponto isso pode chegar.
Agora, sobre a instituição (o leitor já sabe que se trata do Ministério Público), abate-se o impasse: quando os ministros do STF resolveram buscar justiça pelas próprias mãos (a um só tempo investigadores, julgadores, censores, aplicadores), ficou visível que a Instituição dentro da qual um grupo obstaculizou o exercício regular do direito sem sofrer firme oposição, não encontra o caminho de volta, nem se abre para ouvir vozes não morosas.
Vale lembrar:
Há séculos, a própria caça passou a possuir classificação e regras: caça de montaria (caça utilizando-se cavalo e arma de fogo), volatória (com utilização de aves de rapina ensinadas), altanária (caça de volatória). Há tratados antigos sobre isso, dentre os quais – Livro da Montaria, de Dom João I, Rei de Portugal; Livro de Ensinança de bem calvagar toda sella, de Dom Duarte. O direito passou a regulá-la: o alvará de 31 de Outubro de 1468 apenava todos aqueles que utilizassem rede, candeia (tocha) e boi (caçador cobrir com o couro do boi para enganar as aves, que o seguiam), na caça de perdizes. Provisão de 7 de novembro de 1499 previa pena para aqueles que utilizassem bestas e armadilhas para caçar pombas. Lei de 19 de dezembro de 1560, de Dom Sebastião, proibiu que em março, abril e maio houvesse caça a perdizes e destruição de seus ovos,…
A própria caça possuía regras e penas.
Hoje, trata-se de caça?
O certo é que a instituição não está encontrando o caminho de volta e não pode ampliá-lo e o STF, por seu presidente, desconhece que até mesmo a caça tem suas regras, mesmo que se trate de caça altanária.



segunda-feira, 15 de abril de 2019

DIFFICILE EST SATYRAM NON SCRIBERE





Ruy Medeiros
Apresso-me na tradução: é difícil não escrever sátiras.
Horácio, poeta latino clássico, respondeu a um amigo, em versos, que lhe era difícil não escrever sátiras. A realidade circundante exigia versos satíricos.
Vivemos em situação com desafio semelhante àquele com o qual Horácio se defrontou: há coisas que já não desafiam respostas comuns e comportam sátiras.
O governo atual e seus apoiadores são campo fértil, em razão de seus dasatinos intelectuais (?), para sátiras. Poeta satíricos, fiquem a postos.
O ex-Ministro da Educação disse do alto de sua sapiência que não houve ditadura no Brasil (a dita, implantada em 1964). Teria havido singelamente uma “democracia forte”.
Não sei se o conceito servirá para enobrecer a surrada Ciência Política. Mas cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos, aposentar compulsoriamente, prender ilegalmente, torturar e matar adversários políticos, tudo isso receber o nome de “democracia forte” é bruta violação da inteligência.
Já o ministro de relações exteriores (coloquem em letras minúsculas) demonstrou ser um expert em não saber o que foi o nazismo: afirma que se tratou de um governo socialista. Um Diplomata alemão não se conteve e respondeu que essa afirmação ministerial era uma asneira. Isso não impediu que o culto capitão reformado repetisse a aula de seu ministro, em Israel.
Flávio, filho do Capitão, deputado, diante da evidência de que parte da remuneração de seus assessores Parlamentares ia para a conta de seu assessor-chefe, deixou claro que delegou a esse o gerenciamento dos ganhos de seus assessores. Como?
Mesmo no que se refere aos parentes dos milicianos que atuavam em seu gabinete?
Mas, o que dizer do atual ministro da educação para o qual o Nordeste do Brasil só necessita de Cursos de Agronomia no que respeita ao ensino superior? Certamente que os nordestinos e todo o Brasil precisam também de outros cursos, apesar de ficarem muito gratos se vierem estabelecimentos tão importantes como as Escolas de Agronomia, que contribuíram muito para transformar o País em grande produtor e exportador de alimentos. Não deprecie, doutor!
Devem estar lembrados que Maristela Basso, professora do Curso de Direito da USP (pobre USP!), pelo microfone da Jovem Pan lecionou que Bolivar, O Libertador, sofreu influências de Marx e Lenin, cujas obras eram muito lidas em seu tempo. Bem, milagre dos milagres. Não se sabe como isso acorreu.
Em verdade, Simón José Antonio de la Santíssima Trinidad viveu de 1783 a 1830. Karl Marx ainda era menininho quando Bolivar nasceu, pois o filósofo alemão veio ao mundo em 1818 e quando Bolivar morreu mal garatujava com letras góticas. E Lenin? Vladimir Ilitch ULianov, Lenin, nasceu em 1870, quatro décadas após a morte de Bolivar. Esses comunistas fazem milagre: um doutrina o mundo quando ainda era criança, outro já agitava toda a América quando ainda não era nascido. Perigosíssimos!
O deputado Kim Kataguiri, dentre outros ensinamentos, tornou evidente que Karl Marx revisou suas ideias no período da Primeira Grande Guerra (1914-1919), quando o famoso filósofo já contava mais de 30 anos de falecido. Cara perigoso, retornou ao mundo depois de falecido, e revisou suas obras!
Pega leve, gente!
É nisso que dá quando se estuda em escola sem partido.
Dificcile est satyram non scribere. 













































terça-feira, 9 de abril de 2019

O frasista e o ato


Ruy Medeiros


Ontem, 8.04, o programa de entrevistas mais antigo da TV no Brasil, Roda Viva, da Cultura, conversou com o muito conhecido Delfim Neto por sua capacidade de ironizar e de produzir muitas frases de efeito, um frasista como se dizia.
O ex-Ministro, Delfim, criticou as politicas econômicas postas em prática após ditadura militar, mas elogiou o Plano Real ao qual, no entanto, fez reparos à política de câmbio escorada na taxa de juros.
Mas, o que aqui me interessa é aquilo que o ex-ministro (quase Primeiro Ministro) de alguns governos militares opinou sobre o Ato Institucional n° 5, de 1968. Delfim Neto disse não estar arrependido por aceita-lo e destacou o fato de que a proibição de Habeas Corpus aos presos e detidos por atos de natureza politica era uma garantia (!!!). Segundo o economista entrevistado, a supressão da garantia do Habeas Corpus significava que o Estado assumia toda a responsabilidade pelo preso e por sua integridade.
Nunca se ouviu uma falácia tão grande como a apreciação de Delfim em relação à proibição de juízes deferirem Habeas Corpus a aprisionados com motivação politica. Habeas Corpus é garantia democrática, garante a liberdade, inclusive a autonomia de conduta.
Historicamente, aquela apreciação do economista entrevistado é falsificação: a supressão do Habeas Corpus não garantiu o preso, nem sua proteção pelo Estado. Ao contrário disso, muitos presos foram torturados e assassinados nas prisões da ditadura militar, muitos foram tirados das prisões e assassinados. A história é bem conhecida.
O ex-ministro deixou de falar sobre outras atrocidades permitidas pelo Ato Institucional n° 5, depois incorporado à Constituição por sua Emenda n° 01/89, dentre as quais: permissão ao Presidente ditador para cassar mandatos, suspender direitos políticos, expropriar bens, decretar recesso do Congresso Nacional, expropriar bens de particulares, decretar como de segurança nacional municípios e indicar seu prefeito etc.
É sempre bom lembrar, pois estamos vivendo numa fase obscura de nossa história onde se pretende até negar a existência da ditadura militar e suas atrocidades.
P.S. Caiu o Ministro da Educação e já foi substituído. O atual é aquele que, em evento público e concorrido, declarou que as grandes empresas brasileiras e a grande imprensa do Brasil são controladas por empresários comunistas. De uma sátira na qual Horácio, velho poeta latino, respondia a um amigo que, diante da situação existente em sua sociedade, era difícil não agir como ele agia, ficou a conclusão assim sintetizada: é difícil não escrever sátira. É isso, diante da situação politica atual é difícil não fazer sátira. Stanilaw Ponte Preta (Sérgio Porto) faz falta.
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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Enterrando ossos






Ruy Medeiros

À memoria de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho


Estranha ordem do dia, ou mensagem de co(re)momeração foi lida nos quartéis por determinação do Presidente da República. Dela pode ser feito um resumo naquilo que respeita à história: não houve ditadura no Brasil.
Trata-se de negar para esconder algo de que se envergonha?
Em verdade, cabe pedido de desculpas, no mínimo, por aqueles que impuseram a ditadura:
Desculpa por atentar contra a democracia: depondo Presidente eleito cujos poderes, depois de limitados, foram restituídos pelos eleitores em plebiscito; cassando mandatos legislativos e executivos legitimamente conquistados em eleições; suspendendo direitos políticos; estabelecendo eleições indiretas para governadores e senadores (uma cadeira por Estado federado); extinguindo partidos políticos; impondo a um Congresso um Presidente e uma Constituição, para que esse os aprovasse sem recurso à recusa; impondo Decretos-leis aprovados por decurso de prazo;
Desculpa por atentar contra a ciência, a cultura, a inteligência, liberdade de pensar, cantar, ler e liberdade de informar: censurando livros, músicas, teatro, filmes, jornais e revistas; expulsando professores, estudantes e cientistas das escolas e universidades, impondo a necessidade de exilio a intelectuais, isto é, impedindo a vivência democrática.
Desculpa por atentar contra a liberdade: vigiando, coagindo, prendendo e ameaçando pessoas e grupos.
Desculpa por atentar contra a vida: matando e torturando.
Desculpa por fazer isso tudo e deixar como herança: pesada dívida pública, impedindo investimentos necessários para a implementação de direitos sociais; não esclarecimento de crimes perpetrados pelo poder, luto incerto, sofrimento, nódoa marcante e indelével na história do País;
Agora, como se não bastassem luto mal realizado e corpos ocultados, ao invés da voz da verdade – a negativa dessa.
Ossos, como em Perús, que eram enterrados clandestinamente com finalidade de apagar crimes de governantes, agora têm como sequência o vergonhoso enterro da verdade. Em nota, os ossos da verdade são sepultados à luz do dia, negando ossos escondidos.
Enterro da verdade feito ao modelo de qualquer república banana.
Antígona, filha de Édipo, foi proibida por Creonte de dar sepultura a seu irmão. Ergueu-se no entanto contra a proibição de seu tio e lançou terra sobre o cadáver insepulto que se destinava a ser pasto de abutres. Antígona foi punida: viva foi enterrada no túmulo dos labdácidas (ancestrais de Édipo).
Lá, na Grécia, o fato é lendário. E aqui?
O poder muitas vezes não devolveu corpos no Brasil e as Antígonas brasileiras não receberam sequer desculpas, no entanto, tanto tempo é passado.
Recebemos elas e nós a abominável mentira.
A ditadura também é isso, senhores. Ela existiu, deixou herança e herdeiros:
Esses que negam sua existência.

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Instituto Vladimir Herzog
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quinta-feira, 28 de março de 2019

Horror & Horror



Ruy Medeiros
De tanto martelar mensagens conseguiram fazer da reforma da Previdência uma medida unânime. Unanimidade sobre o desconhecido. Unanimidade sobre o pior. Foram convocados bem pensantes, comunicadores assoldados, jornalistas com ânsia de agradar o governo fardado. Formou-se a santa aliança contra a Previdência Social para salvá-la daqueles que são o seu motivo de ser. Não se enuncia sequer o qualificativo social, pois isso pode direcionar o pensamento para outro modelo de análise, ou provocar alguma comiseração.
Depois de tornar a reforma uma unanimidade (falsa unanimidade), outra farsa se ergueu: somente aqueles que são contra o Brasil estão contra a reforma da Previdência Social. Agora é esse discurso patriopança que vale. Ser contra o próprio país, que crime! Não falta muito para os farsantes dizerem que aquele que é contra a reforma é um inimigo interno e que deve ser processado na forma da Lei de Segurança Nacional (lei da época da ditadura militar que alguns membros do Ministério Público consideram que foi recepcionada pela Constituição de 1988!). Lei de Segurança contra esses agitadores anti-reforma, brada a horda governante.
E a farsa segue seu curso.
A reforma será deliberada por um Congresso Nacional cujos integrantes, em sua maioria, não precisam de Previdência Social, têm como safar-se bem.
Quando da luta contra a ditadura militar, muito se falou em aposentadoria que considerasse que os mais idosos estavam mais sujeitos a enfermidades, precisavam alimentar-se bem e ter conforto, casa asseada, adquirir medicamentos, etc. Falava-se então de Welfare State – Estado de bem estar social.
Agora se diz que para salvar a Previdência Social é necessário que se aniquilem os pensionistas, aumente seu tempo de contribuição e diminua o valor da pensão.
Cinicamente os senhores escravocratas falam em acabar com os privilégios. Privilégios de quem? Há muitos que foram lesados pela forma inconstitucional (validada pelo STF) de reajuste de pensão e benefício que não preserva o seu poder de compra. Há inúmeras ações contra o INSS junto à Justiça Federal, muitas das quais julgadas a favor dos contribuintes, com justiça, provocadas por erros da seguridade que aumentaram suas despesas.
Há privilégio de quem, tendo trabalhado mais e contribuído mais, recebe pensão correspondente a seu esforço e valor recolhido à Previdência Social?
A farsa dirige-se igualmente contra servidores públicos. Esses são uns privilegiados da previdência, afirmam e açulam as feras contra funcionários do Estado. Lembram-se da caça aos marajás (servidores) prometida por Fernando Collor? Pois é, a desfaçatez é coisa repetida. Aquele que estudou durante uma vida, submeteu-se a concurso, obteve direitos legalmente, contribuiu sem falta (recebe remuneração com o desconto previdenciário), agora é vilão e dentes caninos o ameaçam: “são eles, servidores há sem dúvida, os privilegiados, responsáveis pela quebra da Previdência.” Isso não é coisa honesta. Argumentam que os servidores mais bem remunerados, por que teriam aposentadoria maior, recebem transferência de trabalhadores sujeitos a um teto de pensão menor. Mas há teto e possibilidade de contribuição suplementar para servidores e o Estado é obrigado a dar sua contrapartida. Também as empresas contribuem com a sua quota.
Não é que os trabalhadores transfiram: esses recebem menos daquilo que deveriam receber. O argumento não leva em conta as transferências do Estado, os que saem e não retornam da Previdência, inclusive definitivos emigrantes, os que, aposentados, porque trabalham contribuem, as contribuições das empresas. Argumentar que há transferência serve para justificar o argumento de que, como está deficitária (por culpa do Estado) e a população brasileira é preponderantemente velha, o valor de proventos de aposentadoria deve ser fixado, no máximo, entre 2 e 3 salários mínimos. Isso pode ser ótimo para quem não precisa da Previdência Social, dentre os quais os que não pagam Imposto de Renda sobre ricos dividendos que recebem.
Terror e mal estar são espalhados por todos os cantos e muitos já sofrem com a perspectiva da falência da Previdência e do não recebimento de suas pensões. Os do governo atemorizam os pobres a fim de que estes aceitem uma migalha pois é melhor uma côdea de que nada: “conhecerás a verdade e ela te libertará.”
Quebra da Previdência é outra peça farsesca. O Estado é um só. A distribuição de seus recursos pode ser feita de forma diferente a fim de, gradativamente, estancar o déficit. Mas aí entra a necessária justiça fiscal. Mas falar de justiça para qualquer Chicago Boy, que sempre esteve na assessoria do capital parasitário, é tolice. O interesse fala mais alto: nada de cobrar Imposto de Renda sobre riquíssimos dividendos, nada de Imposto sobre Grandes Fortunas. O Estado, de acordo com Bolsonaro e cia deve ser mínimo. Mínimo para quem? Como fica o “serviço da dívida” que consome meio orçamento brasileiro? No Brasil e no mundo, para destruir, separa-se a Previdência Social do Conjunto estatal. O fato de, na Lei Orçamentária, haver um orçamento próprio de seguridade, não impede a criação de um fundo de estabilização.
Em cada município brasileiro, por menor que seja, nos dias de pagamento de benefícios da Seguridade Social, apesar da crise, vejo pessoas fazendo compras e o comércio movimentar-se. Seguridade vai além do horror-terror da propaganda oficial e quejandos. Tem importância econômica, é preciso repetir o óbvio.
Alguns, diante do terror espalhado, sentem o mesmo que sente um personagem de Nâzim Hikmet, ao atingir 51/52 anos:
Aos 51, ele disse: “Fiquei velho. Vivi um ano a mais do que meu pai”.
Agora ele está com 52.
Desempregado.
Agora, parado na escadaria,
Perdido
Nos pensamentos mais estranhos.
“Com quantos anos vou morrer?”
Será que ao morrer terei um cobertor sobre mim?”
(Hikmet – Paisagens humanas de meu país).
Quem salvará a Previdência Social de “seus salvadores?”



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

100 Anos do Falecimento de Meneca Grosso


100 Anos do Falecimento de Meneca Grosso
(atualizado 18/02/2019: 15:21)
Ruy Medeiros
Para:
Dilson Ribeiro de Oliveira e Maria Santos Oliveira,
sua esposa, Paulo Márcio Fernandes Cardoso,
Humberto Flores, Ubirajara Brito e
Francisco Paulo Ribeiro Rocha


Há cem anos, na Fazenda Baixa do Arroz, no município de Vitória da Conquista, faleceu Manoel Fernandes de Oliveira, mais conhecido como Maneca Grosso (08 de maio de 1869 – 11 de fevereiro de 1919).
Manoel Fernandes de Oliveira, filho de Manoel Fernandes de Oliveira e de Umbelina Maria de Oliveira, nasceu em 08 de maio de 1869, na Imperial Vila da Vitória, nome que então tinha o Município de Vitória da Conquista. Após o falecimento de seu pai, ocorrido em 18 de fevereiro de 1876, sua mãe contraiu núpcias com Ernesto Dantas Barbosa, pessoa com quem o enteado teve excelente relação.
Maneca Grosso mantinha uma escola em sua fazenda (Baixa do Arroz), onde lecionava. Não teve educação formal, escrevia artigos para jornais (A palavra, de Conquista, e Diário de Noticias, de Salvador, em seção “a pedidos”), foi professor, poeta, jornalista e político. A politica o envolvia e sua morte tem relação com essa.
Em Vitória da Conquista formaram-se dois grupos políticos: Meletes (oposição) e Peduros (situação). Embora dessas facções participassem pessoas das mesmas famílias e ambas seguissem o Governador J J Seabra, após a morte do coronel Gugé foi impossível controlar o acirramento das divergências. Os grupos possuíam seus veículos de comunicação: O “Conquistense” era porta-voz dos meletes e a “Palavra” representava a orientação dos Peduros. Em antigos e versos satíricos publicados nos jornais, Maneca Grosso atacava fortemente os meletes, especialmente o Coronel Pompilio Nunes, o juiz de Direito da Comarca (Antonio José de Araújo) e o Promotor de Justiça (Virgílio de Paula Tourinho).
A mudança na Constituição Estadual no sentido de tornar o cargo de Intendente (então era o titulo do chefe do Executivo Municipal) de eletivo para de nomeação pelo Governador obstaculizava, no entender dos Meletes, sua ocupação do Governo municipal, pois aquela alteração alimentava o continuísmo. Embora se declarassem seabristas, os meletes gradativamente afastavam-se de Seabra por perceberem que este não os prestigiava.
Em 5 de janeiro de 1919, Maneca Grosso saiu da cidade para a Baixa do Arroz em companhia de Cirilo, seu amigo. Ambos foram emboscados em Simão, localidade entre Campinhos e Baixa do Arroz. Pistoleiros a serviço dos meletes assassinaram Cirilo e espancaram fortemente Maneca Grosso. Este, tomado de grande dor moral e em consequência dos ferimentos, veio a falecer em de 11 fevereiro de 1919.
A distribuição de panfletos ofensivos entre as facções, as discussões acaloradas, a morte de Cirilo e o espancamento de Maneca Grosso findaram por instalar a luta armada entre Meletes e Peduros que completou um século no último janeiro.
Meneca Grosso deixou poesia publicada em jornais e inéditas, inclusive um livro. Camilo de Jesus Lima pretendia escrever sua biografia. Não o fez, mas dedicou-lhe elogioso artigo, publicado na edição de 28 de janeiro de 1961 de “O Jornal de Conquista”. Nesse artigo Camilo lançou a idéia de construir um obelisco em homenagem ao poeta Manoel Fernandes de Oliveira no Cimo do Morro da Tromba. Chegou mesmo formar-se comissão composta por várias personalidades conquistenses para viabilizar a construção de mencionado obelisco que, um século decorrido da morte do bravo Maneca Grosso, não foi edificado.
Os Conquistenses prezam sua história e sobre tudo dois poemas do poeta: Canto do Cisne e do Cimo do Morro da Trombra, os mais conhecidos e lembrados.
A poesia de Maneca Grosso foi bastante influenciada pelos poemas de Castro Alves. É o que se percebe em poesias esparsamente publicadas em jornal local e em seu livro inédito.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Tributo a Heleusa Câmara



Ruy Medeiros

A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, em pé, planta e atividades ao ar livre
Em antologia organizada por Jaime Martins de Freitas, de julho de 1980 (Poetas Contemporâneos de Vitória da Conquista), Heleusa escreveu em introdução a doze de seus pequenos poemas ali estampados:
Eu me apresento: há 36 anos no dia 14 de maio de 1944, nesta cidade de Vitória da Conquista, num domingo, por sorte de sol, chegava Heleusa, quarta filha de Ubaldino Gusmão Figueira e Maria Stela Morais Figueira.
Vim para ficar, e lutei contra a morte em muitas doenças infantis. Tive uma infância feliz numa conquista de poucas ruas calçadas e muitas brincadeiras de roda, tonga e anelzinho.
Casei-me aos 19 anos com Almir Querino Câmara e temos quatro filhos.
Há oito anos comecei a lecionar História, matéria que me encanta.
Não tenho pretensões literárias e o que faço retrata o que sinto.
Heleusa Figueira Câmara (14/05/1944 – 06/01/2019) marcou fundo Vitória da Conquista. Amada professora de literatura na UESB, destacava-se na cátedra por admitir abordagens diferenciadas dos textos submetidos aos estudantes e por sua capacidade de diálogo com esses. Aliás, capacidade de ouvir e responder a todos, independentemente de colorações ideológicas, religiosas ou de cultura, gênero e etnia. Embora de formação evangélica (Batista), teve como orientador de uma de suas pós-graduações um anarquista, que se tornou seu amigo. Heleusa sempre buscou o saber. Cursou mestrado e doutorado e era militante cultural.
Intelectual incansável: Professora de História (de 1972 a 1980) no Centro Integrado Navarro de Brito, Professora de Português Instrumental e Comunicação, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vice-Reitora dessa, fundadora (com outros escritores) da Academia Conquistense de Letras, a qual presidiu nos biênios 87/88 e 89/90, Presidente do Conselho (Penal) da Comunidade da Comarca de Vitória da Conquista, Secretária Municipal de Educação (gestão do Professor Doutor Historiador José Raimundo Fontes), Coordenadora do Proler (atividade da Biblioteca Nacional) em Vitória da Conquista por vários anos, sócia do Educandário Juvêncio Terra. Heleusa estimulou várias pessoas à atividade da escrita, resultando em publicação (pela qual trabalhava) de livros de ficção e memória.
Fez versos, contos e textos científicos. Sobre o valor de sua produção literária é bom que se diga: livros referenciados por escritores de destaque, inclusive críticos de literatura. Cito o caso de duas de suas obras ficcionais: “Mulheres Acorrentadas” (1982), publicada pela acreditada Editora Cátedra, tem prefácio de Afrânio Coutinho, destacado crítico cujo renome vai além do Brasil, autor de Introdução à Literatura no Brasil, e diretor da obra, em seis volumes, A Literatura no Brasil, dentre outros. “40 graus de outono” (1990), editado pela casa não menos famosa Massao Ohno Editor, tem apresentação de Antonio Carlos Vilaça, consagrado escritor ficcional, memorialista e crítico, e prefácio do poeta (e historiador da literatura) Carlos Nejar.
Heleusa escreveu contos, novela, poemas, texto científico e teatro. Dentre suas obras encontram-se as referidas Mulheres Acorrentadas, 40 Graus de outono, e A Baleia, Contas na Mesa, Fantasia Serrana (duas peças de teatro), Atrás das Paredes e das Grades (sobre a situação de encarceramento).
Almir Querino Câmara, seu marido, hoje viúvo, é engenheiro civil. Tem grande folha de serviços prestados a Vitória da Conquista. Em 1973, a convite do Secretário de Obras, Aliomar Coelho, passou a integrar a equipe do Prefeito Jadiel Matos. Permaneceu no serviço público municipal por trinta e alguns anos, destacando-se por sua competência e probidade. Prestou serviços, na qualidade de engenheiro, à Caixa Econômica Federal, e desenvolveu atividades de produtor rural.
Heleusa deixou filhos: Diana, Mônica, Danilo e Verônica.

A professora Heleusa, assim era mais conhecida, faleceu em 6 de janeiro de 2019, e era profundamente querida e admirada por todos aqueles que a conheceram. 


Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica

Memória do Direito | Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica 17 de setembro de 2026, 8:14 / Anderson ...