segunda-feira, 22 de maio de 2023

o significado do 9 de Novembro

 

Ruy Medeiros | o significado do 9 de Novembro

Foto: BLOG DO ANDERSON

Ruy Medeiros

Os municípios costumam adotar critérios para fixar data comemorativa do inicio de sua existência. A maioria adota a data da lei de sua criação. Alguns preferem a data da criação de suas paróquias. Outros, a data da fixação local dos seus primeiros habitantes. Em caso de a sede municipal ser cidade planejada, prefere-se a data de sua inauguração. Vitória da Conquista optou pela data de sua instalação, que corresponde à posse da Câmara Municipal, composta de 7 Vereadores, como determinava a Lei Imperial de 1828, que regia composição, organização e competência das Câmaras Municipais. 

Para Conquista, em seu Centenário, o Prefeito Interventor, Dr. Luis Regis Pacheco Pereira, adotou a data da instalação do Município, com a posse de sua primeira Câmara Municipal. O prefeito mudou o nome da praça (Praça da Piedade) para Praça Nove de Novembro, ajardinou-a, dotou-a de iluminação e mandou edificar um obelisco no qual menciona a data de 1840. Embora os trabalhos da praça dedicada ao centenário tenham se iniciado em 1840, somente no ano seguinte foi concluído. Se fosse utilizada como critério lei de criação a data “natalícia” seria 19 de maio, pois essa é a data da Lei Provincial n° 124: 19 de maio de 1840, data a partir da qual o Distrito de Nossa Senhora da Vitória (da Conquista), do Município (Vila) de Santana de Caetité foi emancipado, tornando-se Imperial Vila da Vitória (na Colônia e no Império, Vila correspondia tanto ao município quanto a sua sede). A sede de alguns Municípios podia ter o status de cidade. No caso da Imperial Vila da Vitória, a sede só passou a ter denominação de cidade (Cidade de Conquista) com a lei de 1º de julho de 1891. Depois, Decreto-Lei estadual n° 141, de 31/12/1943, deu-lhe o nome de Vitória da Conquista. Na gestão Jadiel Matos, no ano de 1973, foi oficializada a data comemorativa de Nove de Novembro.

Então, nem data (desconhecida) dos primeiros a pisar o solo, nem data da instalação da Paróquia (15 de agosto de 1820), nem data da lei de criação foram observados. Ficou o Nove de Novembro oficializado por Jadiel Matos, após consulta formulada a Carlos Jehovah de Brito Leite e José Mozart Tanajura (Casa da Cultura), continuando entendimento já existente quando do centenário, em 1940.

A primeira Câmara teve como Presidente Luis Fernandes de Oliveira, natural de Santana da Aldeia (hoje Município de Arátuípe), Vila de Nazaré, Bahia. Luis Fernandes de Oliveira foi marido de Tereza Oliveira Freitas, filha de Faustina Gonçalves da Costa (por isso, Tereza é neta de João Gonçalves da Costa, fundador do núcleo que deu origem a Vitória da Conquista, e de Josefa Gonçalves da Costa).

Há certa tradição familiar que assegura que Luis Fernandes de Oliveira era filho do Contratador de Diamantes com Chica da Silva. Isso não corresponde à verdade. Em seu testamento, ele diz: “Declaro que sou cidadão Brasileiro, honra de que mais me prezo, natural da Freguesia de Santana da Aldeia, termo da cidade de Nazaré, Província da Bahia, filho legitimo do Sr. Luis Fernandes de Oliveira e Dona Ana do Sacramento, falecidos”.

A partir dele, a história política local, durante muito tempo, foi marcada por seus descendentes, dentre os quais o Coronel Gugé.

Conquista, nascida no último quartel do Século XVIII, completa, em 09/11/2022, 182 anos de elevação do Distrito da Vitória a Vila (Município), igual idade de sua instalação.

 

Ruy Hermann Araújo Medeiros

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do BLOG DO ANDERSON


além dos números

 

Ruy Medeiros | além dos números

Foto: BLOG DO ANDERSON

Ruy Medeiros

A diferença de votos entre Lula e seu concorrente foi apertada, dizem e redizem, considerando diferença percentual de 1,8% de votos, que corresponde a 2.139.645 votos. Seria assim, se outras considerações não pudessem ser validamente feitas. Luís Inácio Lula da Silva, não faz muito tempo, era o político mais execrado do país, encontrava-se inelegível e era considerado alguém morto para eleições. Recupera-se e torna-se agente de uma frente eleitoral do qual participam políticos de peso. Contra ele acenou-se a criação de uma candidatura de centro, que o esmagasse. Considerando essa situação, não parece que os números devam ser analisados apenas como números que expressam uma diferença apertada. Elas expressam outra coisa: por detrás da diferença e de percentuais há a maior votação recebida por um candidato considerado pouco tempo antes um fósforo queimado. Por detrás dos números, há a realidade de um candidato que, apesar de mil obstáculos, ainda conseguiu vencer eleições com 60.345.999 votos. 

Por detrás dos números deve-se considerar que o concorrente utilizou contra o candidato vitorioso a máquina de governo como nunca se via desde a redemocratização. O capitão reformado, que já conta com quase quatro anos completos de esforço para destruir o regime vigente, não agiu com o mínimo de ética político-administrativa: por meio do “orçamento secreto” liberou verbas para parlamentares de sua base, muitos dos quais candidatos que fizeram sua campanha; ampliou o número de beneficiários e antecipou o pagamento do Auxílio Brasil, não por humanidade, mas por obscuro oportunismo; criou empréstimo consignado sobre o Auxílio Brasil, não por solidariedade, mas para adquirir voto e corromper consciências; seus correlegionários mais fanáticos exerceram pressão sobre eleitores adversários, e empresários que o seguem promoveram o maior assédio eleitoral da era republicana no Brasil; com máquina azeitada praticou exaustiva divulgação de mentiras (fake news), intimidativas; mandou que a PRF criasse embaraços, no Nordeste, sobre eleitores em trânsito etc. Esse uso imoral da máquina pública poderia supor (como geralmente ocorre) a vitória esmagadora do governante. Mas o opositor conseguiu transpor isso tudo. Que vencesse com 1.000 votos de diferença já seria significativa proeza. Venceu com 2.139.645 votos. Anos e mais anos, o presidente ameaçou, amedrontou, dopou consciências, lançou sobre a classe média o medo de ameaça contra o lugar dessa, seus valores, seus símbolos que o adversário levaria a termo. A cada dia era isso, somando à ameaça de golpe para satisfazer a ânsia dos fascistas que veem risco constante sob regime das leis. Para a sua vitória, tudo, a seu ver, era permitido. Governadores eleitos foram pressionados para viabilizar sua eleição, e aceitaram a pressão, como foi o caso de Minas Gerais.

O discurso de vitória apertada tem objetivo de apequenar o candidato eleito e encaminhar o raciocínio para o discurso de divisão, a exigir um governo que não coloque a necessidade de conflito contra as forças da extrema direita e, no limite, falar em pouca representatividade para desqualificar o candidato eleito.

A presença do candidato perante o corpo eleitoral é maior de que os números apurados do pleito eleitoral. Concorde-se ou não com ele, a sua vitória nos limites eleitorais, foi grande.

 

Ruy Hermann Araújo Medeiros

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do BLOG DO ANDERSON


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Eduardo Meira de Araújo

 






Homenagem a Eduardo Meira é de sempre. A deste momento é diferente pelo tipo de sentimento: a perda. Ontem, Eduardo faleceu e foi sepultado. Os últimos dias foram-lhe penosos. O coração não resistiu.

Eduardo Meira, filho de Mário Vieira de Araújo e Ramira Meira de Araújo, nasceu em 06 de novembro de 1954, por acaso em Ilhéus, pois a família é conquistense (lembro que um dos ascendentes é Almirante, aquele que se envolveu na disputa entre Meletes e Peduros).

Militou nos movimentos sociais desde bem jovem. Esteve, ainda estudante, junto a jovens contestadores do regime militar, grupo que fazia circular uma folha mimeografada com o título “O Combatente”. Participou da oposição sindical dos comerciários, foi um dos fundadores da CUT – Regional Sudoeste da Bahia, do Centro de Assessoramento em Trabalhos Sociais, de Labor Assessoria, ativo integrante da Oposição Operária, do Grupo Parp (Parto). Militou no PT, mas desse afastou-se. Junto a professores, desenvolveu trabalhos no sentido de dota-los de um outro sindicato.

Era Eduardo Meira personalidade presente nos movimentos e manifestações populares. Espírito socialista, lúcido e inteligente, era muito querido.

Formado em Geografia, era professor dessa ciência, na rede estadual. Deixa forte lembrança entre seus discentes.

Para os seus, Sara, Hugo e Raquel, meu abraço forte. Seu Eduardo é exemplo de homem.


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

A Mestra não batia continência

 


Ruy Medeiros



A mestra chamava-se Edvanda Teixeira. Ela envolveu-se de corpo e alma no trabalho de educação popular. Embora professora da rede pública de ensino e cumpridora de seus deveres de servidora pública, tirava a maior parte de seu tempo em atividades de Educação popular. É que gratuitamente ensinava, na periferia da cidade e na zona rural, a trabalhadores, jovens, donas de casa, desempregados.

Foi a grande educadora, na região, das Comunidades Eclesiais de Base. Seu ensino era problematizador e emancipatório. Todos os envolvidos participavam, a fala de todos era buscada e considerada. A visão crítica das coisas estabelecia-se no auditório e as diversas contribuições sobre o tema em pauta eram discutidas. A liberdade era cultivada.

Grande parte de sua vida transcorreu no período da ditadura militar. A parábola tinha de ser utilizada.

O Município de Vitória da Conquista batizou uma de suas escolas com o nome da educadora. Homenageava-a, reconhecia-lhe o trabalho e queria perpetuar sua memória de educadora para a liberdade, seu método, inclusive (ou sobretudo?).

Agora, circula notícia de que a escola que ostenta o nome da educadora Edvanda Teixeira oferecerá ensino com pedagogia nos moldes de Colégio Militar.

Quem, sem conhecer a história de vida da educadora, Edvanda Teixeira, ver o seu nome inscrito na fachada da escola, que passar a adotar a pedagogia dos Colégios Militares, há de imaginar que era essa a pedagogia de Edvanda Teixeira e a sua memória estará desfeita ou, no mínimo, desnaturada. Todo objetivo de preservar a memória íntegra de uma grande educadora se esvairá. Esse não pode e não deve ser objetivo de homenagem. Não.




terça-feira, 17 de agosto de 2021

Para além do analfabetismo funcional

 



Há pessoas que sabem ler e escrever, mas não conseguem elaborar um texto ou compreender uma notícia escrita. Elas frequentaram escolas, sabem somar, multiplicar, subtrair, dividir e lêem e escrevem nomes, frases, talvez mesmo um bilhete, um endereço, ou algo simples. São os analfabetos funcionais ou secundários.

As sociedades atribuem a denominação de analfabeto funcional de acordo com suas exigências culturais. Umas exigem mais e outras exigem menos de seus alfabetizados.

No Brasil de hoje, é incalculável o número de analfabetos funcionais, mas ao lado dele outro fenômeno ocorre: há algo além desse tipo de analfabetismo. Trata-se do analfabetismo que não é sofrido pelas pessoas, mas que por elas é cultivado, exercitado com ganas de bárbaro. Lêem e escrevem, mas se recusam a transformar informação em conhecimento por não exercerem nenhum trabalho reflexivo sobre ela. Essas pessoas encontram-se envoltas em situação do além analfabetismo funcional e reagem alimentando-o. Envoltas no e alimentantes do analfabetismo além do funcional, as pessoas nessa situação caracterizam-se, em primeiro plano, por negar a evidência. Não se trata de, metodologicamente, deixar de lado a aparência das coisas como dado que pode enganar, mas sim de não aceitar aquilo que é transparente ou aquilo que serve de comprovação, ou de não aceitar os dados da ciência. E, nesse agir de recusar o que é evidente, substituem amplamente a ciência pelo obscurantismo. Em matéria de produção do conhecimento, almejam uma escola orientada totalmente contra a discordância e que não tenha o foco voltado para a assim chamada cultura desinteressada, que é tão relevante para o desenvolvimento de cada pessoa e da inteligência.

Esse analfabetismo que se situa além do analfabetismo funcional detesta o direito à diferença sem prezar, no entanto, a igualdade.

Em política, esse novo(?) analfabetismo não julga, simplesmente aceita a coisa, mesmo que essa seja deplorável, tosca e desumana: já há os chefes que pensam pelo e para o novo(?) analfabeto. Essa ausência de autonomia para discernir, auto imposta por aqueles que se encontram além do analfabetismo funcional, os aproxima do objetivo que direcionava a educação do estado nazista (Staat Hitler): crer, obedecer, combater. Porque não julga e não desenvolve a crítica, aquele que se encontra além do analfabetismo funcional não tem qualquer escrúpulo em divulgar as notícias falsas (Fake News) e em atribuir ao chefe qualidades que esse não tem. Alguns deles não hesitariam em adotar a consigna do princípio do chefe: O führer tem sempre razão.

O contingente que sofre e ao mesmo tempo alimenta o analfabetismo além do funcional está aí. Não é de surpreender que vários de seus membros apresentem diplomas e títulos acadêmicos, embora gostem com enlevo do senso comum. Diante do desenvolvimento da ciência, da técnica e do cultivo do espírito, esse além do analfabetismo funcional é um descompasso civilizatório que alimenta formas despóticas de governo.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Homenagem que se impõe

 




Hoje, a Secional da Bahia da Ordem dos Advogados, com repercussão nacional, presta homenagem a Luiz Viana Queiroz, Vice-Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.

Luiz Viana tem sido vítima de notas plantadas na imprensa, inclusive redes sociais, que transmitem falsa caracterização de seu posicionamento político.

Em verdade, aproveitando-se do fato de o Vice-Presidente do Conselho Federal alertar e afirmar que a OAB não deve ser partidarizada, dizem que ele deseja apoiar o governo.

Ora, de sã consciência, ninguém quer ver a OAB transformada em aparelho. Mas, embora sem partido, ela tem o dever político de “defender a Constituição, a Ordem Jurídica do Estado democrático de Direito, os direitos humanos, a justiça social, e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e instituições jurídicas”, como consta de seu estatuto.

Luiz Viana, integrante por mais uma vez nos Conselhos Seccional e Federal da OAB, seu hoje Vice-Presidente, tem demonstrado empenho na defesa da democracia e participado ativamente dos embates daqueles que não querem ver a liberdade perecer.

Servem à opressão os que mentem para calar a voz do Vice-Presidente, e todos aqueles que, à míngua de compreensão quanto à atual conjuntura, teimam na tentativa de desqualificar pessoa que mantem, propósito de defender os avanços da liberdade, como sempre tem feito. E, assim, é maior e melhor que notícias plantadas.



Nossa Solidariedade a Luiz Viana.



Ruy Hermann Araújo Medeiros

Osvaldo Camargo Júnior

sábado, 10 de abril de 2021

1964 DC, 31/03

 Ruy Hermann Araújo Medeiros


Publicado originalmente no Ruy Medeiros | 1964 DC, 31/03 | BLOG DO ANDERSON

Renitentes, que nisso se tornaram por força de engajamento em projeto autoritário, ou por incompreensão, ou por força do desconhecimento da história, teimam em comemorar o Golpe de 1964. Comemorar a retirada inconstitucional de um Presidente já é algo difícil de aceitar. 

 

Mas os renitentes, no fundo, comemoram a covardia da tortura de encarcerados, o crime do fazer desaparecer pessoas, o legado da ampliação do latifúndio e da brutal concentração de rendas, a censura a jornais, rádios, revistas e televisão, e aumento da dívida externa. Esse legado da ditadura deve ser comemorado? Li a Ordem do Dia do Sr. Ministro da Defesa. É escárnio ele dizer que a ditadura foi necessária para que tivéssemos a liberdade de hoje. Deve-se retificar essa falsidade. A luta contra a ditadura construiu essa quota de liberdade (pequena ainda) que temos hoje.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do BLOG DO ANDERSON

Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica

Memória do Direito | Ruy Medeiros recebe diploma simbólico da UFBA em ato de reparação histórica 17 de setembro de 2026, 8:14 / Anderson ...